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Nuvens que Passam: A genialidade do violonista Dilermando Reis

Abismo de Rosas - genialidade do violonista Dilermando personificou canção de autoria de Álvaro Jacomina e influenciou várias gerações 
Fotos: Tatiana Valente


Homenagem- Seresteiros de Guaratinguetá reunidos no Cemitério do Pedregulho encerraram o 26ª edição do  Festival Dilermando Reis. Abaixo o túmulo do músico.



Em 13 de dezembro de 1968 o programa " A Hora do Brasil" que depois se tornou " A voz do Brasil" anunciou às 23 horas o Ato Institucional nº5 (AI- 5). O quinto - de dezessete decretos emitidos pela ditadura militar -foi considerado o mais severo de todos os atos e implicou na perda de mandatos dos parlamentares contrários aos militares, intervenções do presidente em municípios e estados e derrubou a constituição o que facilitou a institucionalização da tortura, usada indiscriminadamente pelo regime. Na mesma noite várias prisões foram realizadas, dentre elas a do presidente Juscelino Kubitschek que acabava de sair do Teatro Municipal do Rio. Ao saber da prisão do amigo e companheiro de serestas, o músico e professor de Maristela Kubitschek, Dilermando Reis foi visitá-lo e numa tentativa de tranquilizar Juscelino  disse:

" Presidente, fica tranquilo. Isso são nuvens que passam...", filosofou Reis.

"Olha Dilermando... Isso vai dar música. Já deu!", previu o ex-presidente mineiro.

Essa história estava entre as muitas recordações de familiares e amigos, a maioria músicos, que estiveram reunidos neste domingo (25) no 26º Festival Dilermando Reis, uma homenagem aos 106 anos do virtuoso violonista. Os Seresteiros de Guaratinguetá e músicos convidados do Clube do Choro Waldir Azevedo de Taubaté apresentaram aos presentes choros e valsas compostas pelo homenageado. Todos os anos essa reunião acontece de frente ao túmulo de Dilermando no Cemitério do Pedregulho, no município de Guaratinguetá, em São Paulo onde nasceu e cresceu o músico. Para o produtor e pesquisador musical responsável pelos Seresteiros, José Boele a realização do Festival é uma forma de perpetuar a obra do violonista e compositor.

" Dilermando Reis é para nós uma referência no violão nacional. Não se aprende violão sem estudar sua obra. É sabido por todos os violonistas brasileiros que Dilermando foi  e sempre será uma referência . Ele  levou o nome de Guaratinguetá aos quatro cantos do mundo", celebrou .

A secretária de Cultura Aline Carla Damásio dos Santos lembrou ainda da importância de se homenagear artistas da cidade que levaram a cultura para outros países como um somatório do passado com o presente para a formação da nova geração de artistas.

"Estar aqui nessa manhã é uma oportunidade, ainda mais quando temos artistas de Guaratinguetá que levaram nossa cultura para outros países. A Cultura não é estática. Dilermando está se fazendo presente", disse  Aline.

Nascido em 22 de setembro de 1916, Dilermando Reis foi criado no bairro do Pedregulho.  Começou os estudos no violão com o pai, o também violonista Francisco Reis e teve aulas teóricas com o conterrâneo Bonfiglio Oliveira. Aos quinze anos se tornou o maior violonista de Guaratinguetá. Foi quando numa excursão pela cidade o músico Levino da Conceição  o convidou para segui-lo em suas apresentações. No Rio de Janeiro passou a lecionar na loja "Guitarra de Prata" e a acompanhar calouros na Rádio Guanabara. Cinco anos depois foi para a Rádio Clube do Brasil onde formou uma orquestra composta por 10 violonistas. Daí em diante passou a gravar discos com valsas e choros como " Noite de Lua"; " Magoado"; "Feitiço"; "Dois Destinos".

Morando no Rio  reclamava constantemente da saudade que tinha de Guaratinguetá, e sempre que podia voltava à terra natal para visitar amigos e familiares. Em especial sua tia Jandira, com quem tinha uma relação de amor e ódio- mas o amor sempre vencia . Toda vez que compunha uma música nova a chamava para ouvir e perguntava :"Vê se te agrada?".

A tia, se sentindo a vontade dava seus palpites e o músico muitas vezes contrariado devolvia " eu quem fiz a música, eu toco ela do meu jeito". Em homenagem à tia fez o o choro "Vê se te agrada" assim como transformou em música o bordão da família Reis muito usado quando queria falar de algum burburinho que corria na cidade :" Disse me disse". 

" É muito emocionante participar deste evento. Eu era criança mas me lembro que quando ele vinha nos visitar era uma festa. A gente ficava ali, reunido, todos em volta dele ", contou Gislene Aparecida Carelli Reis, 71 anos, filha de Filadelfo Santos Reis, irmão do violonista.

Embora compositor de valsas e choros considerados clássicos do cancioneiro nacional, Dilermando Reis tinha a habilidade de personificar o violão e revisitar outros clássicos dando a eles  características tão peculiares que por muitas vezes  as canções eram consideradas suas. Como em "Gotas de Lágrimas" ( Mozart Bicalho) e Abismo de Rosas (Américo Jacomino). Esta genialidade influenciou gerações de  músicos como a do compositor, violonista, arranjador e produtor Luiz Bueno, que por 42 anos atuou com Fernando Melo no premiado Duofel.

" É impossível falar do violão brasileiro sem passar por Dilermando Reis, assim como hoje está em voga falar da ancestralidade no caso de nossos indígenas, que habitavam o Brasil muito antes dos portugueses chegarem. Dilermando Reis está aqui. Na raiz do violão brasileiro, muito antes de Baden Powell, de Raphael Rabello, Paulinho Nogueira, Toquinho e tantos outros, sem falar dos mais atuais como o próprio Duofel, Yamandú Costa. Eu, por exemplo gostava de rock. Na minha juventude gostava de Beatles, Roberto Carlos e Jovem Guarda. Mas meu pai não me deu uma guitarra, me deu um violão, e ele queria que eu tocasse 'Abismo de rosas'.  Tirava tudo de ouvido e tinha facilidade, fui tirar a música para tocar para meu pai e conheci ' Sons de Carrilhões'; 'Marcha do Marinheiro';  'Adelita' canções que me recordo de cabeça. Então acho que o violão de Dilermando Reis toca qualquer geração: fala da ancestralidade, da vida do interior, quintal com galinhas, pintinhos, a terra. Olha eu amo a música de Dilermando Reis e agradeço por ter plantado essa semente que deu árvores tão frondosas, tão fortes, enraizadas que não há tsunami que arranque aqui de nossa terra brasileira- nosso violão brasileiro", celebra Bueno.

Essa ancestralidade  Dilermando Reis deixou registrada em forma de canção. "Guaratinguetá" é o nome da música que é considerada pelos munícipes o hino da cidade, berço do músico que é referência na arte do violão. Deixou este plano em dois de janeiro de 1977, em decorrência de um edema pulmonar, mas renasce em cada violão brasileiro bem executado.

No vídeo a seguir os Seresteiros de Guaratinguetá acompanhados pela cantora Edna no encerramento do 26º Festival Dilermando Reis apresentam " Nuvens que Passam", que foi inspirada pela prisão do ex-presidente Juscelino Kubitschek.









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