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Quinta da Saudade : " O reggae me traz saudade..."

 


Flor do reggae- canção que me lembra de uma grande amiga que me deixou uma lição de superação e força em meio a tanta delicadeza
Foto: Tatiana Valente

" Não pai. Não quero ir no show da Ivete", disse eu, aborrescente.
"Mas Tatiana, as pessoas estão se estapeando por esse ingresso, acabou, o clube estará lotado, suas amigas todas vão", disse meu pai intrigado.
"Pai. Eu não gosto da Ivete", disse pra encerrar o assunto.
Mas era mentira. Eu vivia cantarolando as músicas da Banda Eva, tinha acabado de voltar de Porto Seguro, amava a "axé music", e não queria assumir que minha decisão de não ir ao show daquele dia era porque o menino pelo qual era apaixonada iria com sua namorada. Para evitar o encontro e ficar vendo cenas de beijos ao som das músicas que eu gostava, decidi num rompante não ir ao evento.
Lembrava disso enquanto pensava no que escrever sobre os 30 anos de carreira da majestosa Ivete Sangalo. Não conheço outra cantora como ela. Ela é inexplicável.
Enquanto arrumava meu armário nessa terça ouvia uma playlist com seus maiores sucessos, até que esse cartão da foto caiu no chão. Não pude segurar o choro. Parecia mesmo um sinal do que teria de escrever.
Tirei carteira de motorista no ano 2000, mas tinha muito medo de dirigir. Engraçado que dirigir era um dos meus maiores sonhos. Sou demasiadamente distraída, um traço do TDAH que tenho, mas que consegui controlar após ouvir muitos " sai do  mundo da lua".  Até que um dia conheci duas irmãs, recém-chegadas do Japão que se tornaram grandes amigas, a Tati e a Fer.
Tati tinha a minha idade, adorávamos ligar uma pra outra e dizer "e aí Tati? Tudo bem, Tati". Era só risada. Tínhamos em comum o ranço por quem nos chamava de Tatiane. Era Tatiana poxa. 
Fernanda - a caçula - estava saindo da adolescência, embora uma mulher, tinha aparência de uma menina, pois desde a primeira infância lutava contra uma leucemia, que parecia exterminada pela doação de medula feita pelo irmão. Por ser extremamente miúda e delicada dei a ela o apelido de Florzinha.
Mas a "Florzinha", que por coincidência fazia aniversário em setembro era brava e muito nervosa. Um dia saímos e fomos a um barzinho em Mogi. Lá tinha música ao vivo e nos acabávamos de dançar. Logo que chegamos, Florzinha decidiu ir para outra casa noturna, seu paquera estava lá. Nós, mais velhas a aconselhamos a não ir, mas ela entrou no carro da amiga -nossa carona- e foi. Minha xará e eu permanecemos onde estávamos, era lá o point das meninas da nossa idade.  Dançamos a noite toda, e a vocalista da banda cantou "Flor do Reggae". 
Ivete Sangalo tinha acabado de lançar o álbum MTV ao vivo, e eu amava todas as músicas da baiana. Com a coreografia entranhada na alma me joguei na pista do bar e com minha amiga ganhei seguidores animados. Até que o guitarrista interrompeu a música: "Tatiana, tua irmã te espera na portaria", todos nos olharam. Quem era a Tatiana? Fomos correndo com medo de que algo tivesse acontecido para nossa florzinha, tão delicada. A "amiga", chegou na casa noturna e deu "pt". Não tinha a menor condição de dirigir. Florzinha dirigia, mas não tinha tirado a a habilitação, estava nervosa e tremendo de medo. Fomos sorrateiramente até a casa das meninas para  pegarmos o carro do irmão delas. Tati dirigia o carro da menina totalmente alcoolizada no banco traseiro. Fernanda, dirigiu o carro do irmão e durante todo o percurso - o bairro onde nossa carona morava era distante - me deu um sermão: sobre o fato de uma mulher do meu tamanho e da minha idade ter habilitação, ter saúde e não dirigir. E ainda disse :olha pra mim. 
Deixamos todas em casa e fui parar na porta da minha casa às cinco horas da manhã, com meu telefone tocando "Light my fire" do Doors, e na tela escrito "Mãe". Tomei outro sermão sobre sair, não voltar pra casa, sobre perigos, sobre ligar pro IML...
A partir daí retomei minhas aulas de direção. "Meti a cara" e pegava- meio escondida- o carro do meu pai pra vencer o medo. 
Fernanda vibrava a cada percurso vencido. Até que finalmente comprei meu carro e liguei pra ela para que pudéssemos dar uma volta. Infelizmente ela tinha retornado ao tratamento da leucemia, que voltou com toda força. Não pudemos dar nosso passeio. Aos 20 e poucos anos nossa florzinha foi perdendo suas pétalas, sua cor e a  doença a levou. Uma manhã, enquanto me arrumava para dar aula o telefone tocou e era a notícia de que tinha partido, mas que gostava muito de mim e queriam me avisar.
Desde então, assim que tive uma remissão do meu hipertiroidismo me tornei doadora de medula óssea, e aguardo, ansiosamente pelo dia em que serei chamada para tornar possível o sonho de alguém. Toda vez que o medo de dirigir vem me assombrar me lembro da garra da Fernanda me dizendo :" olha pra mim".
Hoje, celebrando os 30 anos de Ivete e o fato de ter conhecido essa Flor imensa compartilho com vocês "Flor do Reggae", composição de Ivete, Fábio Carvalho de Souza e Neilton Cerqueira Santos.
Seja um doador de medula e de esperança: https://ameo.org.br/

P.S: Veveta. Eu realmente não gosto de você. EU TE AMO!





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