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DJAVAN : DUAS EMOÇÕES E UM OLHAR

 


Experiências - a nossa colaboradora, Djafã teve a oportunidade de vivenciar em diferentes casas de shows de São Paulo como é tratada a acessibilidade
Fotos: Renata Souza

 

  " Fui convidada novamente pela querida Tatiana Valente, a trazer para vocês minhas impressões sobre dois shows que tive a honra de presenciar no amado Djavan, não venho aqui expor minha opinião sobre as apresentações que foram magníficas, porém como pessoa com deficiência colocar para vocês como funciona esse Direito assegurado por lei 12.933 de 2023 que revoga a medida provisória número 2208 de 2001. Essa pauta é importante, pois hoje pessoas com deficiência trabalham, estudam, viajam, namoram, casam, pagam impostos. Portanto são cidadãos de direito e com obrigações como qualquer ser humano, por falar em ser humano é primordial lembrar que antes da deficiência, cor, raça, credo, somos todos pessoas com sonhos e vontades, e eu como fã (pagante) venho demostrar o quanto a sociedade não tem preparo para receber e acolher aqueles que tem necessidade. Imprescindível  lembrar que qualquer pessoa que tenha uma necessidade especial e não só uma deficiência congênita ou adquira tem direto mediante documento comprobatória fazer uso da lei citada acima.

 Estive em dois shows em duas casas famosas em SP e o relato que farei aqui tem um intuito de alerta para melhorias e para incentivar pessoas nas mesmas condições a frequentarem qualquer local que ofereça cultura neste país. Na primeira casa entrei pelo acesso PCD onde informei ao segurança minha condição, ele por sua vez me direcionou a respectiva entrada onde meu ingresso me dava acesso, na porta outra segurança me barrou me informando que para ter acesso aquela área eu necessitava da presença de um soldado dos bombeiros, porém esta prática só é aplicada a pessoas fazem uso de cadeira de rodas ou uma necessidade mais severa, eu  tenho paralisia cerebral o que não me impede de caminhar, portanto não necessito de um soldado dos bombeiros. Ao questionar à segurança sobre a presença de tal profissional, a  mesma me disse para que minha acompanhante teria de “procurar” um. Assim agimos, minha acompanhante foi buscar alguém para liberar nossa entrada, mas infelizmente não encontrou ninguém. Retornando ao portão de entrada e relatando o ocorrido, fui pessoalmente até o posto de socorro do local me informar e lá encontrei um soldado bombeiro, que me auxiliou.  Perguntei sobre as regras da casa e o porquê que mesmo sem ter necessidade eu precisaria de sua companhia, ele me informou que a segurança estava equivocada, no mesmo instante eu  disse que os segurança precisavam ser melhor informados e orientados para que aquilo não ocorresse mais. Ao entrar no recinto me deparei com um local pequeno para a quantidade de pessoas e cadeiras de rodas, muitos cadeirantes apertados junto aos seus acompanhantes, algumas pessoas com nanismo, algumas pessoas com espectro autista (devidamente com seus fones de sensibilidade auditiva) .Estávamos bem próximos ao palco na lateral onde a visão foi muito prejudicada com a colocação de um tapume de madeira mais alto do que as pessoas sentadas, para quem não sabe, nesses locais reservados é proibido que se  levante da cadeira afim de não prejudicar a visão das demais pessoas ali presentes, principalmente os cadeirantes, mas o tapume restringia bastante a visão, o piso também estava solto, dificultando a entrada e movimentação das cadeiras de rodas, no decorrer do shows muitos pessoas inclusive eu desrespeitamos as regras e ficamos em pé mesmo assim foi muito difícil visualizar o shows porque na frente do tapume estavam as demais pessoas então além da parede de madeira, situação que poderia ser facilmente resolvida com uma estrutura elevada.

 Na segunda experiência em outra casa de show o tratamento foi totalmente diferente, em minha primeira experiência ao ir ao show do Lulu Santos, onde não havia mesas apenas pista, a casa disponibilizou essa estrutura mais alta e conseguir curtir o show tranquilamente, neste mesmo local no último show de Djavan, a casa disponibilizou lugares em mesas sinalizadas, fomos abordados já na entrada por uma pessoa que verificava o ingresso e imediatamente acionava o responsável para conduzir a pessoa com entrada especial em sua lugar marcado. Esse local também fica na lateral do palco -poderia ser na frente para melhor visão das pessoas cadeirantes-  mas é possível ver o show tranquilamente. Outro diferencial  é o fato dos assentos de cadeira e acompanhante estarem disponíveis  no ato da compra do ingresso, facilitando também o conforto do acompanhante. 

O que pretendo ressaltar aqui neste relato é o fato que a lei existe, recursos existem o que falta mesmo é vontade e respeito com a pessoa pagante, e principalmente com aquele que já enfrenta tantas dificuldades na vida e que busca  neste mundo das artes  uma forma de se divertir."

 



Renata de Barros Souza tem 44 anos, é Professora de Educação Infantil. alimentada pela música desde pequena. Foi integrante do Coral da Universidade de Mogi das Cruzes, ama cantar (como podem ver na foto tirada no Teatro Musical anos 80). É PCD e trará para vocês aqui resenhas de como a acessibilidade é tratada em casas de cultura.

*Foi com ela que aprendi que cantar é necessidade da alma.

 

Comentários

  1. Indignadíssima com a situação, mas muito feliz por sua garra e coragem de entrar e permanecer no show. Parabéns amiga linda, o país precisa de mais gente como você!

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  2. Parabéns Renata! É isso mesmo boa vontade e mais respeito e disso que todos nós precisamos.

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  3. Muito feliz e orgulhosa por um texto tão rico amiga, você é maravilhosa e está contribuição é muito importante. Bjs te amo amiga

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  4. Como é importante compartilhar essas experiências, e principalmente em caráter de avaliar e esclarecer como deve ser o tratamento ao PCD, exercendo o seu digno lugar de cidadão! Parabéns amiga pelo seu texto, me sinto honrada em saber que estive ao seu lado como acompanhante e que sempre estarei ao seu lado para ajudar a lutar e fazer valer o seu DIREITO! Amo vc amiga 🌹

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  5. M. Angélica Jesus Mello Macedo16 de maio de 2024 às 15:15

    Filhinha, Renata
    Muito orgulho de você que não deixa nada e ninguém atrapalhar seu caminho. É isso aí, você tem e deve fazer acontecer todos os seus direitos, e é lindo a sua preocupação para que todos possam realizar os seus desejos e direitos. Continue partilhando e vivendo intensamente cada minuto. Beijo grande. Amo você!!!

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