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Quinta da Saudade : "tua pele, tua luz, tua juba..."



Bicho -  o álbum lançado em 1977 que trouxe a canção feita para Dadi Carvalho e abaixo o cabelo que me rendeu muitas e muitas homenagens ao som desta canção
Fotos: Reprodução/ selfie de mim mesma (risos)


    Meu cabelo sempre foi uma questão complicada em minha vida. Quando pequena era considerado gracioso, uma loira cheia de cachinhos, com mechas douradas que rendiam perguntas aos meus pais -se tinham pintado meu cabelo-  ou os mais indiscretos o : "por que Tatiana é loira se vocês têm cabelos pretos?"
Quem não conhecia minha minha família paterna não sabia que assim como meu avô Antônio, duas tias são loiras de olhos azuis. Loirinhas .De cabelos crespos. A mim, coube como herança uma vasta cabeleira loira, que teve seu primeiro baque assim que entrei na pré-escola, pegando o temível piolho, para desespero de minha mãe. Muito pente fino, remédios e vigilância constante, restou a ela fazer um corte bem "Joãozinho", levando os cachinhos dourados para a lata de lixo da cabeleireira.
 Cuidar de um cabelo cacheado não era tão divulgado como é hoje, não existiam tantos produtos. O meu era penteado como liso, e por estar curto, vivia armado, o que me fazia chorar com as piadas na escola. E assim foi até minha adolescência, quando lutava contra minha essência tentando alisar meu cabelo a qualquer custo. Numa dessas quase morri sufocada no banheiro de casa, passando" Alisabel" escondida, sonhando ter as melenas lisas como as da propaganda. O amoníaco além de me tontear, me deu um corte químico, tendo de cortar os cabelos na altura do meu nariz. Quando lançaram a "chapinha" foi uma alegria. Mas eu vivia com uma sacola de mercado na bolsa, se chovia, a colava sem cerimônias na cabeça e andava toda pimposa pelas ruas de Mogi.  Descobri que se amassasse os cabelos com um produto chamado ativador de cachos, eles voltavam como mágica. Quando não tinha tempo - minha vida era uma loucura- usava meus cabelos cacheados. Um professor da faculdade me dizia:" não sei por que teima em alisar. Seus cabelos são lindos, Deus te fez assim. Deus faz tudo como deve ser".
 Eu ria. Dizia que queria dar uma mudada vez em quando. Mas, tinha um elogio que me irritava muito. O dono do salão onde eu cuidava de minhas melenas era músico também, e  cismou comigo. Também era do coro de que eu devia assumir meus cachos, pois -imitando Caetano de quem ele era fã confesso- "era liiiindo". O salão era no meu bairro e frequentemente ele estava na porta batendo papo. Se eu passava na rua, começava a cantar :" gosto muito de você, leãozinho..."
Para quem já tinha sofrido muito bullying e sido ridicularizada na escola, ou mesmo entre alguns membros da família, pela "juba" ouvir essa homenagem me irritava. Ele ainda falava de brincadeira pra todo mundo que eu um dia seria sua namorada. Ai que ódio. Toda vez que ia cortar o cabelo o rapaz pegava seu violão e cantava a canção que Caetano fez para Dadi Carvalho. E eu com birra da música.
Um dia cheguei no ensaio do coral e lá estava a partitura da canção na cadeira, esperando para ser cantada por mim, com minha voz. Quem sabia da história me olhava rindo durante a canção, pois já não aguentava mais. Tinha raiva dos meus cachos . Até ouvir do meu "OM" da primeira vez que me viu que meu cabelo era lindo. Aquilo dito com tanta sinceridade e carinho -de quem não é dado a carinhos explícitos - me fez ter uma outra visão a respeito de minha vasta cabeleira.
Nada como o tempo... tempo, tempo,tempo, tempo...
Fiz um acordo com ele e com meu cabelo. Depois dos 40 o aceitei como é. Tenho maior orgulho de ostentar minha juba. É libertador. Hoje, só consigo ter um carinho imenso por essa canção de Caetano e por todos que me incentivaram a gostar de mim mesma como sou. 
Já que 7 de agosto é dia de Caetanear, compartilho com vocês a canção que ele lançou no álbum "Bicho", no ano de 1977, e que dia desses, emocionado, dedicou num show para a afilhada leonina, Preta Gil...
P.S: Caetano...ainda quero ser sua musa... Feliz ciclo novo...






 

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