Eu fiquei indignada. Ele ficou indignado. A massa indignada. A Janja ficou indignada. Paolla Oliveira, indignada, fez vídeo chorando. Até os indignáveis ficaram indignados. Todas as religiões indignadas. Um crime bárbaro, cruel, com requintes de crueldade, sem a possibilidade de defesa da vítima. Cometido por menores de idade, de famílias de classe média alta. Os pais, para encobrir o crime cometido, ameaçaram o porteiro, entraram com liminares para inibir qualquer publicação que os citem nominalmente nas redes. Mas, todo mundo sabe todo mundo viu. A vítima: um cão cuidado pela comunidade, conhecido como Orelha. Acostumado a ser bem tratado, se aproximou dos garotos, achando que encontraria neles algum afago. Conheceu o pior que um ser humano (que de humano não tem nada) pode oferecer. O mesmo aconteceu há alguns anos com um indígena em Brasília. Desta vez foi em Santa Catarina.
Minha cabeça ganhou um looping, desde quando soube dos fatos. Me lembrei de minha primeira cachorra, Juruna, sim uma homenagem ao deputado que lutava pelas causas indígenas. Cresci com ela, minha companheirona, a vi morrer, quando eu tinha 12 anos, após ter mordido um sapo. Até aí, foi uma morte acidental, quando os bombeiros chegaram em minha casa, não tinha mais o que se fazer. O olhar de despedida dela ficou guardado aqui dentro. Dia desses o gato da minha vizinha veio me visitar. Tinha uma ferida aberta, segundo ela, um tiro de chumbinho dado por uns adolescentes da rua da frente, e não deixava ninguém cuidar. Fui espirrando Rifocina até cicatrizar. Algumas cicatrizes fecham. Outras atingem uma camada interna e nada se pode fazer. Tenho algumas assim. Por mais que me digam que o perdão é divino e necessário, tenho um caso específico que não consigo perdoar.
Após a morte de Juruna, fiquei apenas com minha coelha Branca, uma bolinha de pelos. Um dia, uma gata com sintomas de envenenamento apareceu no quintal de casa. Compadecida, dei a ela leite e a bichana foi se recuperando, enquanto eu ouvia os alertas de minha mãe: "olha, essa gata vai ficar e quero ver o que você vai fazer..."
Praga de mãe pega. E essa praga boa ficou. Se tornou Catuxa, e era minha companheira de todos os momentos. A pequena gata não conseguia segurar as crias, e antes de completar a gestação tinha partos prematuros. Levava os gatinhos mortos até mim e miava, como se eu pudesse fazer algo. Numa dessas crias estávamos fora de casa. Ela abriu meu armário, talvez procurando meu cheiro, e teve os filhotes lá dentro. Perdi muitas roupas, cobertores e ainda ouvi um sermão" a mãe que pariu Mateus..."
Tinha planejado levá-la para castração, mas a danadinha embarrigou de novo. Na última cria todos sobreviveram, acordei com o miado estridente da menorzinha, igualzinha à mãe, a ela dei o nome de Madonna. Depois vieram duas tigrinhas idênticas, Xuxa e Angélica, o frajolinha Michael Jackson e o malhadinho Samuca. Este último se tornou meu xodó, me seguia pela casa toda. Enquanto eu tocava órgão ele ficava deitado ao lado da partitura. Nem preciso dizer a confusão que virou minha vida. Era gato para tudo quanto era canto. Eles destruíram a cortina da sala e faziam pela casa uma bagunça sem fim. A pior peraltice de todas foi quando derrubaram a mistura do almoço no chão, o que me rendeu um corretivo bem dolorido . Os gatos eram meus.
Decidi doá-los, e coincidentemente, nesse dia Catuxa sumiu. Fiquei com Samuca, que aos seis meses não saia para rua, apenas andava em cima do muro da casa da vizinha. Um dia o pequeno amanheceu uivando. Parecia um cachorro. Desesperada busquei um veterinário na lista telefônica, e ele foi até minha casa, diante meus pedidos chorosos. Ao ver o pequeno me adiantou: "parece envenenamento com chumbinho. Vou fazer tudo o que estiver ao meu alcance".
No fim da tarde de sábado recebi um telefonema deste profissional, que depois virou o médico dos meus outros bichos, com a notícia de que Samuca não tinha resistido. Minha mãe subiu na janela e descobriu onde estava o leite com o veneno. Na casa vizinha. Juro para vocês, já li vários textos sobre perdão, mas até hoje, passados 32 anos, não consigo olhar na cara desta mulher. Nunca desejei a ela o mal, mas que o universo fizesse o que era justo. Fiquei indignada. E esse sentimento veio à tona quando tomei conhecimento do ocorrido com o cãozinho Orelha.
O que penso destes garotos...
Que recebam o que é justo. Senão da justiça que é falha, do universo. Eles já conseguiram unir uma nação, abismada diante de suas perversidades. Quem mata um animal, mata uma namorada, uma esposa. Mata um colega de sala.
Para hoje, só poderia colocar na minha quinta da saudade In (dig) nação, composição de Chico Amaral e Samuel Rosa, lançada pelo Skank em 1992, em seu primeiro álbum. Foi lema dos cara-pintadas no impeachment de Fernando Collor. Mas esta é uma outra história...

Comentários
Postar um comentário