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Quinta da Saudade : "Se eu quiser falar com Deus..."


Liberdade- canção de Gil aproxima o homem do divino, em uma manifestação genuína de fé
Foto do Livro Todas as Letras e da rosa : Tatiana Valente

"Mãe, eu não sou batizado. Estou em pecado?", me indagou meu caçula.

"Não, filho. Isso é no que seu colega acredita. Eu não acho que uma criança esteja em pecado porque não foi batizada. Antes de vocês nascerem, decidi que não obrigaria vocês a seguir religião alguma. Isso é uma escolha muito pessoal, que só vocês podem decidir. Quero filhos livres, desde que façam o bem", respondi.

"Então eu não sou pecador?", repetiu a pergunta, ainda duvidoso.

"Filho, vamos perguntar para a IA, que sabe tudo, o que ela acha disso."

Eis que o cérebro eletrônico me surpreendeu quando fiz a pergunta. Li a resposta para meu menino com a voz embargada:

"Essa é uma escolha linda e cheia de respeito pela individualidade deles. Como você não segue uma doutrina específica, o conceito de 'pecado' simplesmente não se aplica à sua decisão. Dar essa liberdade permite que eles busquem o próprio caminho espiritual com autonomia e sinceridade, quando e se sentirem que é o momento. Você está conduzindo as coisas com base no amor e no respeito, e isso é o que realmente importa", me disse a Inteligência Artificial.

Satisfeito, o pequeno foi brincar. Mas abriu várias abas na minha cabeça. Embora tenha sido batizada na Igreja Católica e também na Igreja Evangélica, e seja encantada pela visão do Espiritismo, mais ainda pelas religiões de matriz africana, autodenomino-me uma pessoa sem religião. Acredito em  energia, no Divino Espírito Santo, nos deuses, nas deusas, mas, principalmente, na força da fé. Essa, sim, é universal. Verdadeira, pura em sua essência.

Sempre fui da opinião de que o fato de estar debaixo do teto de uma igreja não é garantia de que se tenha fé. Aliás, os piores julgamentos e condenações vi acontecerem dentro de uma igreja, vindos de pessoas que tinham a convicção de que somente elas herdariam o Reino dos Céus. Condenavam homossexuais, pessoas que professavam outra religião e demonizavam tudo o que consideravam "do mundo". Dentro de mim existia uma pergunta: foi isso que Jesus veio ao mundo pregar?

Ouvi muitas vezes que não iria para o céu. Jesus voltaria para buscar os seus, e eu ficaria, porque estava em um show ou ouvindo música "do mundo". Aprendi a ter medo de Deus. A ansiedade teve origem em um local que deveria me trazer paz.

Com os anos e com as muitas leituras que fiz, em uma busca pessoal para me aproximar de Deus, entendi que o livre-arbítrio foi a maior forma de amor que Ele, nosso Criador, nos deu, tornando-nos livres para nossas próprias decisões. A liberdade é um presente de Deus. Só quem ama incondicionalmente consegue aceitar o próximo como ele é: livre.

Tomei como missão que, se um dia fosse mãe, amaria meus filhos exatamente como fossem. Tentaria oferecer a eles esse mesmo amor. Que fossem livres. Livres para o amor, para a escolha profissional e para a fé. Assim tem sido.

Ouvi muitas vezes que estava afastada de Deus por não estar debaixo dos olhos de líderes religiosos. Nunca estive longe do divino. Converso com Deus todos os dias. Essa liberdade, a de poder manifestar minha fé do meu jeito, me aproximou dele. Não o vejo mais como um juiz cruel. Converso com Ele à minha maneira. Sem rezas ensaiadas e sem falar alto, gritando. Converso aqui, no meu íntimo, desde o momento em que acordo até quando vou dormir.

Ele sabe de tudo. Das minhas qualidades e, mais ainda, dos meus defeitos. Digo a Ele: "O Senhor sabe tudo de mim. Sou cheia de imperfeições, de erros, e peço que me guie para que eu possa viver a verdade que me rege."

Ando com fé. Ela me rege.

Vi milagres, conheci anjos na Terra, vi a fé se manifestar de diversas formas. Na natureza. Nas minhas rosas. Até mesmo na música. Ela, para mim, é uma manifestação celestial.

Cada um tem o seu jeito particular de se aproximar de Deus. Não existe uma única verdade.

Há alguns meses, presenciei o encontro de dois líderes religiosos. Cumprimentaram-se e, quando um virou as costas, a outra falou: "Lindo ele. Pena que não conhece a verdade."

Olhei para ela espantada e pensei: foi isso que Jesus, a quem chamam de Rei dos Reis, veio ensinar ? Um achar que tem mais razão do que o outro? Ser fiscal da fé?

Naquele instante, pensei que talvez o maior risco da religião não seja a diferença de crenças, mas a certeza de que apenas uma delas pode existir. Uma suposta "verdade absoluta" que exclui o diferente.

Lembro-me de quando, na juventude, estudamos a partitura de "Se Eu Quiser Falar com Deus", de Gilberto Gil. A interpretação e o uso da voz tinham de ter um quê confessional, quase de uma prece. A letra trazia uma reflexão sobre a conexão com o divino como algo pessoal, como uma entrega livre de cerimônias ou dogmas.

Segundo o livro Gilberto Gil, Todas as Letras, de Carlos Rennó, a música foi feita para Roberto Carlos, que não quis gravá-la, pois aquela não era sua visão de Deus. E tudo bem. Cada um tem sua verdade. Que ela seja usada para o bem, nunca para julgar o próximo.

Para celebrar Gil, que completou 84 anos na semana passada, divido com vocês, aqui na minha Quinta da Saudade, a música "Se Eu Quiser Falar com Deus", lançada em 1981 no álbum Luar ( A Gente Precisa Ver o Luar), produzido por Liminha, Lincoln Olivetti e Robson Jorge.






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