"Tati, você lê partitura, né?", me perguntou meu oráculo enquanto eu contava a uma cantora o motivo pelo qual não fiz faculdade de música, já que este é o grande amor da minha vida. Sim, sei ler partitura, embora não toque mais piano. Tenho o hábito de ler, vez em quando, ou fazer alguns exercícios propostos na internet de interpretação de partituras para não esquecer e exercitar o cérebro. Nem pensa que era um motivo de enrosco para mim nas aulas que aconteciam no apartamento antigo, de sacada, na Rua Casarejos.
Quando comecei as aulas de piano, já tinha em casa um órgão, presente de meu pai para que minha irmã pudesse praticar. Ela seguia à risca o que o livro "Duas Mãozinhas no Teclado", de Mario Mascarenhas, pedia. Um livro totalmente didático, feito para que crianças ainda não alfabetizadas possam tocar o instrumento. Eu, fascinada pelo instrumento, aproveitava os momentos em que ela não estava praticando e me sentava nele, deixando sair dele o que meu ouvido pedia. A primeira foi "Asa Branca", e o mais legal era que o órgão tinha, ao lado, a possibilidade de colocar a percussão, que tinha os compassos definidos por um botão de velocidade.
Daí nasceu um vício: o de tirar a música de ouvido. Vendo minha aptidão em tirar músicas, meu pai também me matriculou nas aulas de piano. Eu já tinha 12 anos, o livro de Mascarenhas não atendia à minha idade e o piano clássico, com Beethoven, Chopin, Debussy, Bach e outros, embora fosse passagem obrigatória, não fazia o olho da aventureira aqui brilhar. Meu lance era música brasileira, o popular.
Minha mestra, Melissa, me emprestou um caderno com as partituras facilitadas por sua professora Helenice Massaro, grande pianista mogiana. Fui até a loja de xerox (gente, nessa época não existia internet), fiz uma cópia para mim, com capa rosa, pois ali tinha tudo o que eu precisava. A primeira música, de compasso 4/4, era Ta-Hí (assim mesmo), de um compositor chamado Joubert de Carvalho, de acordo com a letra cursiva redondinha de Massaro. Na minha lembrança, era a canção que tocava nas matinês do União, para que a melindrosa aqui pudesse dançar. Achava lindo ver a cantora da banda imitar os erres e os trejeitos da Carmen Miranda. Ficava babando nas fantasias de baianas das minhas coleguinhas, com frutas na cabeça. Pensava: um dia me fantasio de Carmen.
Ali no teclado podia trazer a Carmen em mim, por meio das notas musicais. Porém, o que me pegava era que eu tocava o que eu ouvia. Lia a partitura uma vez. Entendia o ritmo, as notas, quais eram. Depois da segunda ou terceira vez, seguia o que o meu ouvido pedia. Muitas vezes, tocava o que eu cantava. E aí era uma confusão sem fim com a professora, coitada. Ela ficava à espreita, vendo onde eu comia uma nota, ou colocava algo a mais, ou deixava a duração mais curta, coisa que meu canto, mentalmente, me ditava para fazer. Meus pais eram chamados: a Tatiana tem um ouvido incrível, uma facilidade com a música, mas preciso que siga a partitura, isso lá no conservatório será exigido. Daí criei, para mim mesma, a crença de que não conseguia tocar um instrumento. Brinco de tocar violão e, quando não acho a cifra, uso meu ouvido para poder executar o que eu quero.
Essa mesma habilidade de "tocar de ouvido" tinha um menino, Joubert, nascido em 1900, na cidade de Uberaba. Fascinado por música, reproduzia no piano todas as canções executadas pela banda da cidade, sem estudo algum, apenas de ouvir. Aos oito anos, compôs sua primeira música. Já morando em São Paulo com a família e estudando no Conservatório, registrou em papel sua obra, de nome Cruz Vermelha. O pai, todo orgulhoso, imprimiu cópias e distribuiu no Hospital da Cruz Vermelha, o que deu ao pequeno destaque na revista Tico-Tico, atribuindo a ele o título de um futuro "Verdi".
Mas foi no Rio de Janeiro que suas músicas ganharam projeção. No ano de 1919, foi para a cidade estudar medicina, mas não abandonou a música, que chegou ao conhecimento do público e passou a ser executada nos bailes. No começo da década de 1930, ganhou o apelido de "Feiticeiro das Notas", devido à sua forma espontânea de compor. Um dia, passando na frente de uma casa de discos, parou para conversar com o dono, que lhe mostrou o disco de uma cantora que chamou sua atenção. Quando ela adentrou a loja, o vendedor disse: "Tá aí a nova cantora". Foi a fagulha para a mente criativa de Carvalho compor a marchinha de carnaval que se tornou hit na voz de Carmen e, agora, renasce na voz de Anitta, como citação na canção do álbum EQUILIBRIVM II, trazendo na letra um pouco da história do amor da Pequena Notável com o músico e compositor Aloysio de Oliveira.
Esta é uma outra história, para outra Quinta da Saudade...
Hoje, fiquem com esta eterna menina, que tira canções de ouvido, assim como Joubert de Carvalho, compositor de Ta-Hí e "Pra Você Gostar de Mim". Ontem, completamos 71 anos sem a nossa Brazilian Bombshell...


Comentários
Postar um comentário