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Quinta da Saudade: " No paraíso da manhã, pétalas brancas caem em mim..."


 Dez de novembro de 2025

“Será que um homossexual não tem direito a viver? Perdi uma grande amiga, parceira, minha companheira de assistir filmes e tomar uma cervejinha em casa.” Assistia eu, já com lágrimas represadas, ao relato de um pai para a imprensa mineira contando sobre a morte de sua filha.

Alice, uma mulher trans de 33 anos, moradora do bairro Betânia, em Belo Horizonte, foi brutalmente agredida por três homens enquanto saía de um bar na Savassi. Teve o nariz quebrado, várias costelas fraturadas e as pernas pisoteadas, ficando com marcas profundas. Socorrida pelo Samu e levada para uma Unidade de Pronto Atendimento, não teve exames solicitados que pudessem apontar com exatidão a gravidade do que havia ocorrido. Quase dez dias depois da agressão, foi internada com perfuração no intestino causada por uma das costelas quebradas. Veio a óbito no dia 9 de novembro, vítima de uma infecção generalizada.

 Treze de novembro de 2025

De frente para a tevê do meu quarto, aguardo — munida de celular, agenda e caneta — o anúncio dos vencedores da 26ª edição do Grammy Latino. Jornalista independente é assim: não tem aporte financeiro para viajar até Las Vegas, nem equipe. Se vira nos trinta e ainda penteia o cabelo do filho caçula, recém-chegado do colégio, que reclama querendo comer.

Vejo Hamilton de Holanda ganhar o Grammy Latino de Melhor Álbum de Jazz Latino com "Live in NYC"; Eli Soares na categoria Música Cristã; o grupo Sorriso Maroto levar Melhor Álbum de Samba/Pagode; e a poderosa Luedji Luna vencer Melhor Álbum de Música Popular Brasileira / Música Afro-Brasileira com "Um Mar para Cada Um". A maior dupla sertaneja do país, Chitãozinho e Xororó, conquistou o Grammy Latino de Melhor Álbum de Música Sertaneja com "José e Durval". E o trio formado por João Gomes, Jota.pê e Mestrinho venceu Melhor Álbum de Raízes em Língua Portuguesa com "Dominguinho" — uma delícia de álbum.

A cada vez que anunciavam Liniker, eu deixava escapar as lágrimas represadas do dia dez enquanto produzia posts para o Instagram do Falando em Sol e escrevia a matéria para o Portal ILC. A cantora, compositora e atriz venceu três categorias: Melhor Álbum de Pop Contemporâneo em Língua Portuguesa (Caju); Melhor Interpretação Urbana em Língua Portuguesa (também com Caju); e Melhor Canção em Língua Portuguesa (Veludo Marrom).

Mais tarde, na cerimônia noturna, nossa “Negona dos Olhos Terríveis” surgiu no palco como uma verdadeira diva — solar. Ela levantou a plateia e mostrou a que veio. A artista de Araraquara que chegou a São Paulo em busca de um sonho estava ali. Para brilhar. Como já disse aqui há dois anos: é estrela das GRANDES.

Não estou escrevendo hoje para reproduzir os comentários feitos na tevê sobre como Liniker é diva, linda, sobre sua roupa maravilhosa ou seus cabelos soltos e cacheados. A vitória dela diz muito sobre sua presença na arte como corpo político, como símbolo de resistência. O caso que contei acima sobre a morte de Alice não é isolado. De acordo com pesquisa publicada pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) no início deste ano, o Brasil continua sendo um dos países mais letais para a comunidade: foram registradas 122 mortes em 2024.

Nossa artista — mulher trans, preta, brasileira, latina — foi ovacionada em um país cujo presidente, em discurso recente para líderes na ONU, afirmou que as nações ocidentais estão sendo destruídas pela imigração. Ela, de olhos terríveis, mostrava a força de sua voz direto da terra do Tio Sam. Premiada, três vezes, respondia com sua arte: sim, mulheres trans têm direito de viver, de serem amadas e admiradas. No Brasil. No mundo. (grifei e sublinhei de propósito).

Resta-me aqui, na minha quinta da saudade, dividir com vocês a música premiada como a melhor canção em Língua Portuguesa: "Veludo Marrom", lançada no álbum "Caju", em 2025. Já se perguntou por que o título deste texto cita "Sem Nome, Mas Com Endereço", se a escolhida para ilustrar o texto foi outra?

Escolhi " Sem Nome, Mas Com Endereço" para título porque foi com ela que Liniker me pegou pela mão, me acolheu e me deixou entrar em seu coração. E somente alguém com flores na cabeça e pétalas no coração poderia ser responsável por uma obra tão sensível quanto "Caju".

P.S: Liniker. Quero ainda poder te dar outro abraço. Pela premiação te deixo este abraço textual. Meu carinho, respeito e admiração. Do outro lado da tela despetalei a rosa, e sigo te vendo alçar o voo mais bonito da tua vida.




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