O WME AWARDS BY BILLBOARD celebra, em 2026, dez anos de existência, reconhecendo e celebrando o trabalho realizado por mulheres que fazem acontecer no mercado da música no Brasil. Ao longo desses anos, a cada edição, uma artista é homenageada pelo conjunto de sua obra. Ontem, em suas redes sociais, o prêmio anunciou a homenageada deste ano: Alaíde Costa. Mas vocês conhecem a trajetória dessa grande cantora?
Há artistas que fazem parte da história. E há aqueles que, mesmo tendo ajudado a escrevê-la, precisam esperar décadas para que o mundo reconheça a dimensão de sua presença. Alaíde Costa pertence a essa segunda categoria. Sua voz atravessou o rádio, os pequenos palcos, os estúdios, a Bossa Nova, os encontros entre compositores e intérpretes e as diferentes fases da música popular brasileira. Uma voz delicada, sofisticada, capaz de cantar baixinho sem jamais desaparecer.
Nascida no Rio de Janeiro, Alaíde começou cedo. Ainda adolescente, frequentava programas de calouros nas rádios, em uma época em que cantar era também uma maneira de sonhar com um lugar no mundo. Em 1955, profissionalizou-se como cantora. Poucos anos depois, estaria no centro de uma transformação que mudaria para sempre a música brasileira.
A Bossa Nova estava nascendo. E Alaíde estava ali. Entre violões, encontros e canções que começavam a romper com os padrões tradicionais da música brasileira, ela conviveu com nomes como João Gilberto, Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Carlos Lyra, Ronaldo Bôscoli, João Donato e outros artistas que ajudariam a construir aquele novo jeito de cantar e tocar. Mas a história nem sempre é generosa com quem participa dela.
Alaíde foi uma das vozes daquele movimento, mas não recebeu, naquele momento, o mesmo reconhecimento destinado a alguns de seus companheiros. Sua presença acabou ficando à margem das narrativas mais conhecidas sobre a Bossa Nova, ainda que sua trajetória estivesse profundamente ligada àquele período.
Em 1959, lançou seu primeiro álbum, Gosto de Você. Depois vieram outros discos, outras canções, outros encontros. E, enquanto o tempo transformava a música brasileira, Alaíde permanecia fiel àquilo que talvez seja sua maior característica: a capacidade de interpretar uma canção sem precisar gritar para ser ouvida. Seu canto nunca pareceu interessado em disputar os holofotes da fama. Ele simplesmente ecoava e ocupava o tempo e o espaço.
Existe uma espécie de intimidade na voz de Alaíde. Como se cada palavra fosse colocada cuidadosamente diante do ouvinte. Como se ela soubesse que algumas canções não precisam de força, mas de presença. E talvez seja justamente por isso que sua trajetória tenha resistido ao tempo.
Alaíde também enfrentou as dificuldades de ser uma mulher negra em um ambiente artístico marcado por desigualdades. Sua história revela uma dimensão importante e muitas vezes esquecida da Bossa Nova: a presença de artistas negros na construção daquele movimento e as barreiras que determinaram quem seria lembrado, celebrado e colocado no centro da narrativa.
Ainda assim, Alaíde seguiu. Cantou compositores de diferentes gerações. Experimentou o teatro. Mais tarde, chegou ao cinema. Em 2020, foi premiada como Melhor Atriz Coadjuvante no Festival de Gramado por sua atuação em Todos os Mortos. E quando poderia simplesmente olhar para trás e contemplar uma trajetória já consagrada, continuou olhando para frente, aos 90 anos continua e apresentando, ocupando o lugar que sempre foi seu destino : o palco. Alaíde nunca pareceu pertencer apenas ao passado. Talvez essa seja a parte mais bonita de sua história. Ela continuou encontrando novas gerações, novos compositores, novos públicos. Continuou gravando. Continuou cantando. Continuou permitindo que sua voz dialogasse com um tempo que já não era aquele de sua juventude.
Em 2023, voltou ao Carnegie Hall, em Nova York, décadas depois de a Bossa Nova ocupar aquele palco histórico. O retorno carregava algo de simbólico: a artista que havia estado tão próxima daquele capítulo fundamental da música brasileira finalmente voltava àquele lugar com sua própria história reconhecida. Não era apenas uma volta à um local , era um retorno no tempo.
Alaíde Costa atravessou quase sete décadas da música brasileira sem perder a delicadeza que sempre marcou sua interpretação. Sua história também revela as vozes que, mesmo fundamentais, nem sempre receberam o devido reconhecimento. Hoje, sua trajetória pode ser revisitada por novas gerações, reafirmando a força de uma artista que nunca deixou de cantar, criar e se reinventar. Porque algumas vozes não pertencem apenas ao seu tempo. Apenas ficam mais profundas com ele.
Por isso, hoje o Falando em Sol traz 5 músicas que merecem ser apreciadas na delicadeza da voz de Alaíde Costa. Dica da editora: coloquem fones de ouvidos e fechem os olhos e deixem esta voz conduzir vocês.
Foi aqui que adolescente a ouvi pela primeira vez. A cantora foi a mulher escolhida por Milton Nascimento para trazer um toque de brasilidade para o álbum Clube da Esquina. "Me deixa em paz" é um samba de Monsueto e Aytron Amorim.
O primeiro lançamento da cantora, em 1959 traz toda aquela atmosfera que só as cantoras de rádio conseguiam reproduzir. Isso é nítido em "Gosto de Você", canção de Geraldo Serafim e Armando Nunes que dá nome ao álbum Tem como não se encantar por tanta doçura em uma só voz?

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