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Terça da Saudade : Os diversos tons de Preta

     


Lembrança - Preta Gil recebendo os aplausos no WME 2023, premiação na qual será a homenageada deste ano
Foto de Preta: Andy Santana
Foto blog: Tatiana Valente



Hoje, a permissão poética me dá direito a um #tbt.

Tuesday e terça também começam com T. E saudade não tem dia.

Foi o que Preta Maria Gadelha Gil Moreira deixou aqui entre aqueles que tiveram a alegria de conviver com ela, considerada por muitos uma celebridade. Sim, de fato era desde o momento em que nasceu. Literalmente "causando" desde a escolha de seu nome, quando o pai Gilberto foi registrá-la com o nome de Preta e ouviu uma negativa do tabelião. Sagaz devolveu: existe Clara, Branca e por que não Preta?

E assim a pequena estreou no mundo. Ainda menina, enfrentou preconceito no colégio particular onde estudava: as mães não queriam na perua escolar crianças pretas. Defendida pela mãe Sandra, a Drão da canção, percebeu que teria de lutar ao longo da vida por nascer em um país cheio de preconceitos. Sua primeira estreia artística, conforme contou no programa de Fábio Porchat, foi assim, lutando contra o preconceito linguístico aos seis anos: para ela o abc era como se cantava no" Abc do Sertão" de Luiz Gonzaga com fê, guê, lê, mê, e respondendo ao bullying, abriu os bracinhos e gritou para toda a criançada toda ouvir. Essa era a Preta. A defensora de sua verdade.

Mãe jovem, deu ao filho o nome de Francisco, e foi avó de Sol. Este era o tom doce da filha de Oxum, devota de Nossa Senhora da Aparecida,  mulher solar e que deixava que os raios em  seus reflexos se abrissem em vários tons, e assim a chamada "celebridade" traçou um grande caminho para abrir muitas portas para as mulheres  trabalhadoras da música. 

Na década de 1990, a produtora de videoclipes. O que para a leonina do dia oito de agosto era pouco, e logo sua inquietação artística  a conduziu para a carreira de cantora. Em 2003 lançou o álbum Prét-A-Porter, no qual aparecia nua na capa, chocando a muitos, e recebendo do pai o comentário como sendo "desnecessário". O que Gil - me perdoe discordar meu guia de sabedoria-  não poderia entender era que aquela atitude era necessária sim, e foi fundamental para a libertação de muitas de nós . Era Preta, em seu corpo, sendo livre de padrões e mostrando para nós mulheres que todas devemos nos amar em nossas  essências, com nossos corpos, nossas verdades. 

Sua liberdade sem limites a conduziu para palcos, mostrando outros tons,  como a compositora; a escritora; apresentadora de rádio (Noites Pretas); apresentadora de TV ( Caixa Preta, Vai e vem, TVZ); a atriz de teatro (Um Homem Chamado Lee e  Mais Preta Que Nunca!), ou a que fez participações em novelas, mentora do the Voice; a líder do Bloco da Preta e defensora dos LGBTQIA +,  e a empresária, que em sociedade com Fátima Pissarra fundou a Music2Mynd.

Por oito anos consecutivos apresentou o Women's Music Event, única premiação das mulheres na música no nosso país.  Ao ser convocada como embaixadora, tive como dádiva presenciar um momento muito especial, no qual todos os tons de Preta se uniram e como um sol ela adentrou o palco, na incerteza se estaria ali, naquele dezembro de 2023 quando tinha vencido uma de suas muitas batalhas contraa doença que a levou deste plano. Nesta noite, anunciou a cura de seu câncer, sendo ovacionada, num teatro Rui Barbosa repleto de mulheres que com ela aprenderam que ser livre no nosso Brasil é uma missão muito mais fácil depois que Preta veio ao mundo. Assim como relatou a professora Renata Souza, colaboradora deste blog.

"Mulher furação. Sim, Preta Gil, se foi...E o que isso significa? Viver! Sim viver, a partir do momento em que nascemos já estamos partindo como um expresso 222, Preta, uma mulher pública filha de uma lenda da música, nos ensina que somos “Drão” apenas um grão, repleto de ilusão e de vida. Ela se foi, minha mãe está indo, todos estamos indo, portanto, ame hoje, viva hoje, perdoe hoje, a vida tem de ser vivida na força, seja qual for a circunstâncias, celebre, cresça, vamos viver com fé porque a fé não costuma falhar e o show, o show tem que continuar", escreveu em relato cheio de emoção.

Pra hoje deixo para os leitores do Falando em Sol dois momentos da estrela, que agora se encontra nos braços de mamãe Oxum e na presença de sua madrinha Gal: o videoclipe de Sinais de Fogo, (composição de Ana Carolina e Antonio Villeroy) e sua participação no WME 2023, registro feito por essa jornalista, tomada pela emoção de constatar tanta força em uma mulher.

Texto: Tatiana Valente







Comentários

  1. Letícia Schinestsck22 de julho de 2025 às 16:28

    Tu tem uma sensibilidade incrível! Cheguei a me arrepiar lendo. <3

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