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Quinta da Saudade: "Minha voz uso pra dizer o que se cala..."

 


SOS- uso este espaço de bate-papo sobre música pra pedir por apoio às mulheres, que sejam vistas, amadas, respeitadas e defendidas
Fotos :Design Ativista/ Tatiana Valente 

Roger Waters acaba de lançar a música "Sumud", que coloca Marielle Franco ao lado de figuras históricas e contemporâneas que representam a luta pela justiça social. Para Waters, o artista britânico, fundador do Pink Floyd, nossa ativista é uma referência; para muitos em seu país de origem, apenas mais uma na estatística — que cresce demasiadamente: só em 2025 foram registrados mais de mil casos.

Vou mostrar as manchetes dos últimos dias...

"'Calvo do Campari' é preso acusado de agressão pela namorada e solto com medidas protetivas" (Jornal O Estado de São Paulo)

"Justiça decreta prisão de homem que atirou contra ex em pastelaria" (Metrópoles)

"'A direção não levou a sério', diz irmã de uma das vítimas do atirador no Cefet" (O Globo)

"Cidade de SP bate recorde de feminicídios em 2025" (O Dia)

"Mulher tem pernas amputadas após ser atropelada e arrastada por 1 km pelo ex-namorado em SP" (Portal R7)

Acho que só para se ter uma ideia do que tem sido ser mulher no Brasil já está de bom tamanho. Não vou discorrer sobre esses casos aqui, pois a mídia já o fez — com imagens, fotos, vídeos, plantões, entrevistas. Provas dos fatos estão mais do que claras. Se tenho estômago para acompanhar os fatos?
Ainda tocada pelo documentário "Caso Eloá: Refém ao Vivo", faço minhas reflexões sobre a função da imprensa em casos de violência contra a mulher. O homem, historicamente, tem “pano passado” para suas atitudes. Sempre existe uma justificativa para o que fez: ele bebeu, estava nervoso, é ciúme, tem medo de perder, não aceita ser chefiado por uma mulher, não aceita que ela brilhe mais que ele, não quer receber menos. Isso quando a religião não serve de pano e a culpa é colocada no diabo. Nem ele deve aguentar mais os “machões covardes” colocando a responsabilidade de seus atos insanos em suas costas.

Dentre tantas postagens, vi a frase: "Uma mulher livre incomoda mais do que uma mulher morta."
É fato. A liberdade incomoda e assusta os homens. Até mesmo porque outras mulheres podem querer provar do gosto de ser livre; as mortas já não podem fazer mais nada. Me preparo mentalmente para ver a visceral Marjorie Estiano dando vida à Ângela Diniz. Como no título da série, foi assassinada e condenada — culpada pelo crime que lhe aconteceu.

Essas atrocidades podem ser vistas. Mas e o que antecede esses crimes? Uma violência doméstica não começa num tapa. Começa nas críticas veladas; nas proibições; no companheiro que dificulta que a mulher tenha um trabalho ou posses; no vidro quebrado do armário porque levou um soco — “ele estava nervoso, tadinho”; no isolamento forçado; nas humilhações que ceifam a autoestima feminina; na porta batida com força para amedrontar; no acelerar do carro; nos gritos...

Muitas mulheres sofrem de ansiedade ou de depressão pelos abusos psicológicos que enfrentam. Tornam-se reféns de remédios e tratamentos que as anestesiam e as deixam vivendo no automático. Dopadas, não sentem nada. Algumas delas vão para a terapia e, ao analisar o histórico de suas vidas, são aconselhadas a pedir apoio às suas famílias. A família, se calcada numa religião extremista e apoiada no machismo, em vez de oferecer apoio, julga e condena essa mulher:

“Você reclama de barriga cheia, ele é trabalhador, não te falta nada.”
“Quero ver você se virar sozinha, com duas crianças.”
“Ah, casamento é assim mesmo, você escolheu. É até que a morte os separe.”
“Não vou colocar você com suas crianças aqui de volta e tirar o conforto dos seus irmãos.”

Já emocionalmente destruída, ela caminha sem auxílio, sem direção. Quando lhe falta fé ou esperança em algo, a morte lhe parece melhor que passar a vida ao lado de seu algoz. Sobe no alto de um prédio ou de um viaduto e salta para o fim. Vira mais uma nas estatísticas. Causa mortis: não foi acolhida. Todos se eximem da culpa. E mais uma vez a jogam na falta de Deus. Ou no diabo. Este já está mais que acostumado.

Desculpem o peso desta Quinta da Saudade. Senti, como mulher, jornalista e mãe, usar “minha voz pra dizer o que se cala”, como fez Elza Soares em "O Que Se Cala", de Douglas Germano, lançada em 1998 no álbum "Deus é Mulher".










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