Sol na Varanda - uma das páginas do relâmpago elétrico traz canção de 1977 com cheiro e gosto de liberdade
Foto: Reprodução LP
Dia desses rolando meu feed no Instagram vi um vídeo do cantor e compositor João Suplicy sugerindo que seus seguidores enviassem pedidos musicais. Não me segurei, e pedi que cantasse "Quando a Noite Vai Chegando", lançada por ele em 2002, numa parceria com João Pellegrino, e a participação mais que especial de Toquinho. Fui prontamente atendida nesta segunda-feira, e foi inevitável não voltar para o ano de 2003, quando estagiária do Caderno de Cultura do Diário de Mogi fui até o Lumiar para conferir seu show, anunciado para os mogianos em uma matéria redigida por mim. Neste dia a música entrou de vez para minha trilha e a amo. Mas, não é "beeeem" sobre ela que quero falar. Sim sobre o Lumiar. Era um bar, localizado na Coronel Souza Franco, Centro de Mogi das Cruzes, onde eu batia cartão para ouvir os músicos da cidade. Não saía de lá, e minha mesa era separada, sempre de frente para o palco. Pensou aí, " Tati pinguça", né?
Errou. Não bebia uma gota de álcool, pedia sempre meu suco de acerola com laranja, ou minha coquinha com gelo, pois minha função ali era ouvir música, muitas vezes encontrar meus amigos, e jogar conversa fora. O bar era o lugar onde por algumas horas, não ficava isolada com meus fones . Me sentava ali, junto dos músicos, aprendendo,e como jornalista, observando cada novidade musical nos repertórios. Lumiar, que eu só conhecia da música de Ronaldo Bastos e Beto Guedes, era meu refúgio, meu lugar de liberdade. Lugar de estender o sol.
A música de Bastos e Guedes conhecia desde a infância, e depois na adolescência, era minha companheira toda vez que deitava na rede, no sítio da minha avó. Lá, sim, vivi tudo o que se fala na canção. Deitava no sereno, dormia, sonhava sem me preocupar com o dia seguinte, contávamos casos -um mais cabeludo que o outro- minha avó dizia ter visto o Boitatá, perto de um cemitério de índios na estrada que liga Cruzeiro à Passa Quatro, Minas Gerais. Olhávamos pro céu abarrotado de estrelas, namorávamos as constelações, e eu me achava o máximo porque sempre encontrava as Três Marias.
Eu caçava girino, achava um barato vê-lo se transmutar e virar sapo, talvez por isso tenha beijado tantos (risos). Hoje fico pensando, "que nojo", pegava aquilo na mão com a maior naturalidade deste mundo.
Levantava cedo, minha avó já tinha preparado o café, o meu com gemada, só com açúcar, sem leite, e me preparava para correr no mato, caía na valeta, me sujava toda. Tinha as pernas tortas, vivia me machucando e cheia de terra e mertiolate. Antes de dormir, quando as pernas doíam minha avó passava Aiodex, e falava: " fiinha, não toma friage".
Quando um adulto nos acompanhava, nadávamos no rio, ali no quintal, o Passa Vinte, limpinho naquela época. Tinha meu lugar na goiabeira, na porta da pequena tapera de bambu e lona onde ficava o fogão de lenha da minha avó. Aguardava ansiosamente com meus primos o momento em que meu tio ligava o chuveirinho que aguava a plantação de tomate. Era uma festa tomar a chuva da plantação. Nos dias em que o sol estava a pino via entre as gotas de água um arco-íris, iluminando os nossos gritos de alegria.
Mais tarde, deitada na rede da varanda, de frente para a Serra da Mantiqueira, estendia o sol ao colocar meus fones de ouvido, acompanhada de uma coletânea de Beto Guedes. Ouvia a música Lumiar e pensava, a minha é aqui. Meu lugar pra viver, pra gostar, tratar de vadiar, e não ver o tempo passar. Depois da partida de minha avó, o lugar perdeu o sentido. Perdeu a magia. Dela, só sobraram algumas rosas em seu jardim. Mas, toda vez que coloco a música de Beto Guedes e Ronaldo Bastos, as melhores lembranças voltam num flashback.
A Lumiar verdadeira não fica longe de Cruzeiro, apenas 350 km. Foi esta cidade, na época pacata que inspirou Bastos a escrever a canção, uma ode à vida simples no campo. A canção foi lançada no ano de 1977 no álbum "A Página do Relâmpago Elétrico".
Daí você, que me acompanha aqui no Falando em Sol me pergunta se tenho um sonho...
Assistir a um show de Beto Guedes em Lumiar, sentada ao lado de Ronaldo Bastos, e dizer para ele: poeta, obrigada por essa música que me dá tanta paz, uma sensação imensa de liberdade, e arranca esse sorriso do vídeo que divido hoje na minha quinta da saudade.

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