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Quinta da Saudade :" Mas ele lavou meu litoral e levou minha pérola..."



Dor- na proximidade do dia da mulher a sensibilidade cede espaço à luta, ao protesto, à indignação de viver num mundo onde somos vistas como meros objetos
Foto: Tatiana Valente

Uma família em Suzano, cidade do Alto Tietê, protesta a morte de sua filha. Uma policial linda, de 32 anos, encontrada morta em seu apartamento. Alguns dias antes enviou uma mensagem pedindo para que o pai a tirasse dali. O pobre homem não teve tempo. Em reportagem lamentava não ter conseguido . Ele, pai de fato, teve o movimento de querer salvar a filha. Muitos pais, calcados no machismo estrutural recebem a mesma mensagem. Fazem vista grossa para todos os tipos de violências domésticas que as filhas sofrem, deixam a valentia para o substantivo que carregam como alcunha. Minimizam para o "é só uma briga de casal". Culpam as filhas por terem provocado a ira dos maridos. 

Não importa. Historicamente as mulheres, mesmo quando em suas razões, estarão sempre erradas.

Queridos leitores do Falando em Sol. Sei que aqui, este espaço, é muito lido e aguardado pelas histórias, pela sensibilidade, e a possibilidade de lembrar de músicas que marcaram trilhas sonoras. Mas, com a proximidade do dia da Mulher, não conseguiria fica quieta diante de tantas barbaridades. Ontem, só ontem, duas notícias acabaram com o meu dia. Dois vídeos. Um de uma escavadeira abrindo covas comunitárias para receber 165 MENINAS ASSASSINADAS pelos EUA e Israel enquanto estudavam na escola. A outra, um vídeo de um trem da CPTM, linha Coral, com um homem que havia acabado de ejacular em uma passageira do vagão. Assim: teve vontade, e sem pudor algum o fez.

Essas, somadas às outras inúmeras notícias de feminicídios ou tentativas de, me fizeram vir aqui para de alguma forma desabafar .Um cara no Rio de Janeiro levou um fora, desferiu 15 facadas em uma moça. Notícia boa de ontem: ela teve alta médica, saiu do hospital. Tem a chance de lutar por dias melhores. Campanhas nas redes sociais pedem que os homens se manifestem. Homens sensíveis são taxados de afeminados, são achincalhados e precisam provar que são machos. Oras, Macho que é macho não agride mulher. 

Porém, uma notícia essa semana veio para abalar de vez a todas nós: uma menina de 17 anos foi atraída até o apartamento do ex-namorado, da mesma idade, e lá por 60 minutos foi agredida e estuprada por mais quatro homens, maiores de idade. Ao chegar em casa, totalmente abalada, relatou à mãe, mas sentia que não seria ouvida, diante da pouca relevância que a sociedade dá a tamanho absurdo. A MÃE, imensa, a socorreu e acolheu sua dor.

Normalmente, como disse lá no começo do texto, culpam a mulher pelo crime. A julgam, a condenam. A dor que ela carregará pela vida, poucos consideram.

Imaginem vocês, leitores e leitoras, pais de meninas. Suas filhas serem violadas desta forma tão agressiva. Te choca?

O estupro acontece muitas vezes dentro dos casamentos. Mulheres violentadas, atos justificados pelo "santo sacramento", no dever de servir ao cônjuge  As mulheres cedem, ameaçadas pelos "varões" : "se não tiver em casa, procuro na rua". Viram depósitos das necessidades fisiológicas de marmanjos que não são Homens para deixar essas Mulheres livres. Morrem aos poucos por dentro, a cada noite em que são obrigadas a servir.

  Vejam: se a mulher diz NÃO, É NÃO. Pode ser ficante, namorado, amante, marido, o que for. É NÃO. Ameaçou, coagiu, é estupro, e  violência psicológica. O sexo deve ser um ato de vontade dos dois envolvidos. Algo pra ser lembrado com carinho, não nojo.

Nem uma freira de 82 anos em um convento no Paraná escapou desse destino imposto às mulheres. Irmã Nádia foi estuprada e morta em um convento em Ivaí. Daí pergunto para vocês: isso é ser homem? Já viu um homem ser estuprado por um grupo de mulheres? Será que o mesmo medo que nós mulheres temos ao sair na ruas, eles também têm? Nós, mães de meninos, que tipo de homens estamos criando? 

Hoje na minha quinta da saudade deixo essa música da cantora e compositora norte-americana Fiona Apple, " Sullen Girl". Vou dividir com vocês o trecho da entrevista na qual ela conta o contexto de composição da canção, lançada em 1996.

"Oh My God, what's going on here...I went through a really hard time when I was a very,very cold person. I didn't like to be near people. When I was 12 I was raped by a stranger, and this song is basically about", contou a compositora em entrevista à CMJ New Music Magazine. 

Será que preciso traduzir sob qual circunstância foi feita a música? A palavra raped - ESTUPRADA- traduz todo esse trecho de entrevista. Aos doze anos. Quando começamos a ter as primeiras formas femininas, muitas nem tiveram suas menarcas. Uma menina. Uma criança. 

Vou traduzir apenas um trecho da letra, que vem acompanhada de um piano melancólico, como vocês constatarão : "Debaixo das ondas / Na tristeza do meu esquecimento/ Será que é por isso que me chamam de garota calada, garota calada?/ Eles não sabem como eu costumava velejar no profundo e tranquilo mar/Mas ele lavou meu litoral e levou minha pérola..."

 Eu que sempre tenho uma palavra de esperança, só tenho a dizer: está difícil demais.

E uma última coisa: pais, ouçam suas filhas. Não ignorem um pedido de socorro.




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