Instagram e suas trends.
E desta vez me fez chorar, com a seguinte pergunta: "Mãe, como você era nos anos 90?". Você, que há seis anos acompanha esse livro digital com minha trilha sonora, já deve ter imaginado que escolhi "Assim Caminha Humanidade" como música de fundo para fotos que acompanham minha vida de 90 até 99. Ali, me vi menina/mulher, com as primeiras formas, seios a despontar (sim, despontaram e não cresceram mais, rs), a pernona comprida, cara de moleca. Minha rotina de adolescente: no teatro, no piano, festas da escola, formatura, vestida de bruxa, tocando atabaque na Bahia, mostrando a língua, toda de preto e coturno, com a camiseta do meu álbum xodó.
Chorei por alguns minutos vendo aquelas cenas. Voltei para o ano de 1994, ainda me transformando numa mocinha, já com meu próprio repertório musical. Voltava do curso de inglês com meus colegas quando um carro de som , daqueles bem barulhentos, anunciou: "Cidade Negra está de volta ao Frô".
Deixem-me explicar para vocês: o FRÔ era uma casa noturna no centro de Mogi das Cruzes, conhecida por ter um salão enooooorme todo espelhado, ponto de encontro cultural para os jovens da periferia. Lá aconteciam bailinhos famosos de flashback e shows com nomes do rap, funk e reggae, para a alegria de todo mundo que podia ir. Quando digo todo mundo, vocês já subentendem aí do outro lado: todo mundo menos você, né, Tati?
Sim, meus caros leitores, não era todo mundo. Eu tinha apenas 13 anos, um projeto de adolescente, ainda vivendo o paradoxo de não ser mais uma criança, mas, ao mesmo tempo, assumir responsabilidades que estavam além do ser. Muitos colegas do colégio iam à casa de shows, acompanhados de primos maiores de idade ou com seus documentos falsos. Mas eles tinham aparência de mais velhos, enganavam bem. Eu era vista como a patricinha que tocava piano, a criança da turma, a menina da fanfarra e ficava de fora de muitas festas. Coube a mim esperar o CD chegar em minha casa, o que não demorou muito.
"Sobre Todas as Forças" foi um dos primeiros álbuns a tocar no aparelho 3 em 1 comprado por meu pai, para a nossa total alegria. Não demorou muito para canções como "Mucama", "Querem Meu Sangue", "Downtown", "Luta de Classes", "Minha Irmã", "Doutor" (que eu cantava para meu pai, afinal minha mãe esperava o quarto filho), "A Sombra da Maldade", "Casa", "Pensamento" e o grande hit composto por Marisa Monte/Nando Reis, "Onde Você Mora", tocarem o dia todo por todos os cômodos de nossa casa. Grande maioria das músicas foram compostas pelos integrantes do grupo: Bino, Da Gama, Lazão e Tony Garrido, que se tornou meu crush cinco anos depois, quando me apaixonei por sua… é… "abundância" em Orfeu.
Produzido por meu xodó Liminha, o CD trazia ainda a versão "Querem Meu Sangue", de Nando Reis, para "The Harder They Come", de Jimmy Cliff, e "Luta de Classes", de Samuel Rosa e Chico Amaral. "Mucama" contava com a participação especial de Gabriel, O Pensador, e a deliciosa "Downtown", com o cantor jamaicano Shabba Ranks. O incrível percussionista Marcos Suzano também participou em algumas faixas, assim como Márcio Montarroyos, no trompete.
Para levar essa joia comigo para todos os cantos, gravei-a numa fita cassete. Nesse mesmo ano, a escola pública onde eu estudava fez uma excursão para o Memorial da América Latina. Fui, quietinha, ouvindo Cidade Negra no meu walkman. Tivemos uma aula incrível naquele lugar. Os mesmos colegas que me achavam criança reclamavam da caretice do passeio. Na volta, entediados com o som ambiente do busão, me perguntaram o que eu estava ouvindo ali, quietinha. Disse: "É o CD do Cidade Negra, que gravei". Levaram a fita para o motorista, e o corredor do busão virou a filial do Frô, no percurso Sampa/Mogi.
Dançar reggae no movimento do busão é um barato. Ali, ganhei o respeito dos meus colegas, como num ritual de passagem. A menina sardenta cresceu aos olhos deles. Te devo essa, Liminha.
Hoje, minha quinta da saudade vai convidar vocês para cair no reggae, ritmo que, segundo a música, "quando bate, você nunca sente dor". A música é "Downtown", composição de Bino, Da Gama, Lazão, Tony Garrido e Ras Bernardo, primeiro vocalista do grupo.

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