Cada nota musical carrega, em sua forma e cor, um tempo de duração. A semibreve, que se parece com um círculo branco, tem uma duração longa, enquanto a semínima, um círculo preto com um traço longilíneo, tem um quarto do tempo da semibreve. Quando elas se juntam a outras notas de diferentes durações em uma partitura, tornam-se frases musicais. Para o músico, é, em forma de imagens, a expressão de um evento chamado inspiração: os sentimentos, as histórias vividas por ele, um amor, o nascimento de um filho e, muitas vezes, o reflexo de sua alma. Assim nasceu Antes da Luz, álbum do pianista, tecladista, professor e compositor paulistano Bruno Marcucci, disponível em todas as plataformas desde o dia 18 de março.
“O álbum ganhou força principalmente depois do nascimento do meu filho, como uma necessidade latente de deixar uma memória, um registro. Mas a ideia de ter um disco autoral vem de muitos anos, e conflita com a carreira de todo músico acompanhante: o tempo para dedicar à própria expressão artística versus os trabalhos com outros artistas, que tomam esse tempo. A chama realmente se acendeu em 2025, e a inspiração veio principalmente da necessidade de transmitir meu olhar ao próximo (filho) sobre como é necessário e belo o caminho da iluminação de nossas sombras, quaisquer que sejam elas”, conta o músico, que reflete ainda sobre a importância do álbum e a beleza do processo da criação musical.
"Antes da Luz é exatamente isso: a beleza do processo, a sombra sendo abraçada para caminhar junto da iluminação. Afinal, não há sombra sem luz. O disco se tornou, para mim, uma jornada espiritual de conexão com o ser. É o olhar para dentro, sentindo as dores ou profundidades da vida, mas com um olhar amoroso, de compaixão, autocuidado e amor-próprio, descobrindo a beleza no processo complexo que é a evolução do ser. A ideia do disco, falando das faixas, é ir profundo, lidar com os atrasos, boicotes e sabotagens que fazemos a nós mesmos, conhecer as limitações, encontrar proteção, brincar, se machucar, subir, pular sobre os muros, entender os padrões repetitivos de comportamento como se já tivéssemos passado por eles e começar a vê-los de forma diferente, enxergando brechas que nos abrem outras portas. A partir daí, começamos a encontrar um pouco de paz e leveza, como uma brisa que nos acalma gentilmente e precede a grande mudança, que é a atitude junto à clareza. É a faísca que acende a chama da transformação definitiva."
Bruno, que se divide entre o estúdio, o ensino de teclado e piano e os palcos, onde integra a banda da cantora Ana Cañas , teve seu primeiro contato com o piano aos onze anos, sob a influência da mãe, que tocava música erudita. Quando menino, observava o passeio das mãos maternas sobre as teclas e fazia muitas perguntas, o que a levou a matriculá-lo nas aulas do instrumento.
"Iniciei em conservatório aos 12 anos e me formei técnico em piano erudito aos 21. Em paralelo, comecei a ter banda e a trabalhar com música popular por meio do teclado a partir dos 16 anos. Também tive contato com o violão, mais autodidata, pois era muito comum, nos anos 90, tocar e cantar na rua com os amigos. Mais tarde, completei minha formação em bacharelado de piano popular", lembra o músico, cuja maior influência foi a música instrumental.
"Desse contato que tive em conservatório com os grandes compositores eruditos Bach, Beethoven, Chopin, Debussy, Ravel, Grieg, Satie, entre tantos outros, e depois na música mais improvisada, como o jazz (Miles Davis, Brad Mehldau, Herbie Hancock, Keith Jarrett, etc.), fusion e música brasileira instrumental (João Donato, Hermeto Pascoal, Moacir Santos, Zimbo Trio, etc.), nas bandas tive grande influência do reggae, rap, MPB e pop rock. Mais recentemente, comecei a mergulhar e revisitar a ambient music e a música minimalista, que conversam bastante com o disco. Nomes como Nils Frahm, Brian Eno, Ryuichi Sakamoto e Philip Glass", diz Marcucci, que vê no instrumento ainda um grande companheiro de vida.
"Acredito que o piano reflete um irmão para mim, desses muito sinceros e, ao mesmo tempo, acolhedores. Me mostra quando não estou pronto, me dá disciplina, é exigente, permite que eu tenha sensibilidade para me expressar, me deixa desabafar, tem cumplicidade. É um processo terapêutico de autoconhecimento e habilidade, que sempre refletiu meu lado sensível e me traz paz. Acho que o principal que o piano reflete de mim é o saber que entendê-lo é um processo sem término, mas prazeroso, assim como o autoconhecimento", conclui.


Comentários
Postar um comentário