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Quinta da Saudade: "Pedacinhos do Céu..."


Homenagem- no dia do Choro, a canção do Mestre Waldir Azevedo que me me faz ver "Pedacinhos do Céu"
Foto: Tatiana Valente


Vejo em minhas redes sociais inúmeros posts sobre o Dia do Choro.
    A data escolhida para comemorar esse Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro (desde 2024) foi devido ao nascimento de Pixinguinha, responsável por clássicos como Carinhoso e Rosa. Tenho certeza de que, aí do outro lado, você cantarolou mentalmente uma delas.

Ontem mesmo, enquanto sacolejava no ônibus no meu trajeto de volta, pensava no que escreveria aqui no blog a respeito da data, até me lembrar de que hoje é dia de #tbt. Tatiana Valente é um baú de saudades com trilha sonora. Foi impossível não me lembrar de como o choro entrou de vez em minha vida. Para mim, o único conhecimento que tinha sobre o estilo musical era o que acontecia na Barbearia do Seu Julinho. O saudoso senhor Julio Pedro Borba era dono de uma barbearia no Shangai, em Mogi das Cruzes, que reunia, todas as quintas-feiras, amigos para uma animada roda de choro, frequentada por praticamente todos os atuais mestres do choro da cidade.

Logo que comecei a trocar e-mails com meu oráculo musical a respeito de música, ele me contou que trabalhava na produção de shows de choro em uma conhecida casa de espetáculos na capital do país e que alguns deles eram transmitidos pela TV Senado ou Câmara, se não me falha a memória.

Lá fui eu, uma menina de vinte anos, cantora de coral e amante da música, conferir pela TV os shows de choro, normalmente aos domingos. Ali vi mestres como Moraes Moreira, Armandinho, Sivuca, e, a cada fim de semana, ampliava o meu repertório musical. Em certo dia, um menino - chamo assim porque me surpreendeu por ser da minha idade - chamado Hamilton de Holanda se apresentou, tocando clássicos do choro. Dentre eles, alguns de Waldir Azevedo, e um chamado “Pedacinhos do Céu” ganhou meu coração. Não sei explicar para vocês, mas entrou pelos ouvidos e fez um carinho no coração.

Virou meu choro xodó e me faz chorar toda vez que o escuto. E foi a trilha de um momento surreal que me aconteceu.

Em 2022 (vinte e um anos depois), fui ao Cemitério do Pedregulho fazer uma matéria sobre a homenagem ao músico Dilermando Reis (leia aqui). Todos os anos, chorões de Guaratinguetá se reúnem em frente ao túmulo do músico para lembrar sua vida e obra. Conversando com o produtor e guardião das histórias de Reis, José Boele, ele me apresentou aos músicos convidados do Clube do Choro de Taubaté e confidenciei meu amor pela obra do compositor carioca. Fui surpreendida com uma homenagem logo no começo da roda de choro. Embora a homenagem fosse para Dilermando, os músicos, empolgados por esta fã, me presentearam com a canção de Azevedo e Miguel Lima de Mattos.

Com lágrimas nos olhos, observei uma senhora sentada no chão, de frente ao túmulo de Dilermando Reis. Ainda pensei:
“Que coragem a dela, se sentar no chão do cemitério. Coisa que a música faz...”

Sorri para ela, recebendo um aceno e uma piscada de volta. Capturei o vídeo abaixo e, quando voltei os olhos para o túmulo, ela não estava mais lá. Nem em lugar algum.

É... creio que, naquele dia, as almas no cemitério tiveram um pouquinho da magia e alegria que só o choro traz.

Hoje, 23 de abril, em comemoração ao Dia do Choro, minha quinta da saudade divide com vocês, pelos músicos do Clube do Choro de Taubaté, a canção lançada no ano de 1951. Dedico ao meu O.M. e o agradeço por ter me apresentado “Pedacinhos do Céu".



                  





 

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