Na faixa "Speech", do álbum "Eu e Memê, Memê e Eu" (1995), o aniversariante do dia, Lulu Santos, discorre sobre o fato de o remix ser uma ideia que outra pessoa tem sobre um trabalho, não importa quem o fez. Nela, o cantor e compositor afirma ainda que "o jeito que fica é que é importante, cada um tem um jeito de contar a mesma história". Contar a história do astro carioca em forma de cenário foi a forma que a produtora, ilustradora, fotógrafa, louca por gatos e por Lulu, Gisela Schlögel, encontrou para criar o cenário do show "Milton Canta Lulu", que estreou na última quarta-feira, 29 de abril, no Teatro Claro Mais. A turnê tem datas confirmadas em São Paulo (13 de maio), Porto Alegre (30/05), Fortaleza (20/06), Natal (21/06) e Belo Horizonte (21/08). Os públicos destas cidades terão a oportunidade de conferir, além da homenagem repleta de hits que marcaram os trinta anos de parceria de Milton Guedes com Santos, a trajetória do hitmaker em cada detalhe cuidadosamente preparado pela cenógrafa.
A paixão pelo astro surgiu ainda na adolescência, na década de 1980. Hoje, aos 52 anos, Gisela encontrou no convite para assumir a produção do cenário uma oportunidade de externalizar todo o amor e admiração pelo ídolo. Formada em ilustração pela Escola Panamericana de Arte de São Paulo, a paulistana trouxe, além das capas dos discos, riqueza de detalhes nos elementos que compõem o palco, como as tevês com imagens de momentos diversos de Lulu, como se a canção sobre o "menino que sonhava tocar guitarra na tevê" tomasse vida. Parte dos elementos foi produzida por ela de forma manual, com todo o cuidado para provocar no público a impressão de proximidade com os objetos que marcaram o tempo e a obra dele. Outros, encomendados especialmente para o evento, trazem elementos específicos e marcantes das capas dos álbuns, como o boneco da capa do álbum Lulu, ou os abajures com as capas de "Assim Caminha A Humanidade", e "Baby, Baby!". Schlögel assina ainda as artes de divulgação dos shows, inspiradas em histórias em quadrinhos.
"O show está incrível, está emocionante. O fato de o Lulu estar há dois anos sem fazer show pega no emocional, a gente está com saudade, e o fato de ser o Milton também. O cenário traz a carreira do Lulu inteira ali. Quando se olha tudo aquilo junto, impacta, a gente pensa: "caramba, que obra ele fez, quanta coisa". Nos discos, em cada objeto, há uma referência. Quando Milton canta uma música de um determinado disco, a capa é iluminada e destacada. Discos como "Singular", "Popsambalanço" e "Luiz Maurício", em algum canto, têm alguma coisa deles. O disco "Lulu canta & toca Roberto e Erasmo", por exemplo, se olhar na capa, tem um chapéu e um lenço de onça, e eu coloquei os dois. No "Toca Mais Lulu", ele usa uma correia zebrada, e eu a coloquei também. Do livro "Traço e Verso", tirei uma imagem, transformei em adesivo e colei no case. Então, todo lugar em que se olha tem uma referência de algo; quem é fã e olha vai se emocionando", conta a artista, que manualmente costurou os ursinhos do cenário, presentes na capa do álbum citado no início deste texto.
Todo o trabalho da paulistana foi realizado nos intervalos encontrados em sua rotina. Há um ano, Gisela, que também atua em uma produtora de eventos em navios, finalizava um tratamento contra um câncer. Nos últimos meses se dedicou a transformar todo amor pela vida e obra de Lulu Santos em arte, emocionando muitos fãs que compareceram, e com toda certeza, fará o mesmo com os que comparecerão nos shows da turnê "Milton Canta Lulu".
Para celebrar o 04/05, Gisela Schlögel é a entrevistada do Falando em Sol de hoje.
Texto e Entrevista : Tatiana Valente
F.S- Como surgiu o convite para assumir a cenografia do show Milton Canta Lulu?
Sou muito amiga da Sonia Fossati, empresária do Milton, e sabia que eles estavam planejando esse show. Como eu também trabalho na área, a gente conversa bastante sobre produção e quando ela marcou as datas do Rio e São Paulo, ela comentou comigo sobre o custo dos painéis de led, e que o Milton queria exibir as capas dos discos correspondentes a cada música neles. Eu vou aos shows do Lulu há décadas e só lembro de ter visto led na turnê do disco "Long Play". Lulu gosta de cenário. Então cogitamos trocar led por cenografia. Era de noite, e eu disse pra ela que iria pensar em alguma coisa e rabiscar uma ideia com o briefing que ela tinha me passado das capas. No dia seguinte mandei, mas não achei que iriámos fazer porque era muito despretensioso da minha parte. Eu só queria dar uma ajuda pra inspirar. Quando eles viram, na mesma hora veio o convite.
F.S - Como foi o processo criativo? Qual foi sua grande inspiração?
Primeiro eu pensei que queria atender o desejo do Milton de mostrar de qual disco era a música que ele estava cantando. Depois eu pensei na obra do Lulu, que é bem maior que o repertório do show, então eu trouxe pra cena referências de toda a sua discografia. Eu queria que as pessoas fossem descobrindo os outros discos durante o show através dos objetos cênicos. Eu sinto que as músicas do Lulu são como abraços, e trazem muita memória afetiva pras pessoas, então eu queria que fosse aconchegante. Eu quis transformar o palco num lugar onde a plateia gostaria de estar. E o Milton foi desenhando cenas lindas, integrando tudo ao repertório. Os figurinos da Raissa Colela são encantadores, a luz está linda, e ver o Milton cantando Lulu é muito especial. Acho que essa homenagem tem muito amor envolvido e o resultado é um show incrível e imperdível. As pessoas estavam em êxtase na estreia.
F.S- Como e quando você começou a acompanhar a carreira do Lulu?
O primeiro show que eu fui na vida foi em 1985 no Ginásio do Ibirapuera e o Lulu era uma das atrações. Era um show de rádio e eu tinha só 12 anos. Eu não lembro direito, mas sei que fiquei encantada porque eu era uma criança que brincava de trabalhar com arte. Depois desse dia eu passei a comprar os discos dele e ia aos shows que minha mãe permitia. Ele virou uma inspiração. Uns anos mais tarde eu comecei a trabalhar no meio artístico e frequentava backstages, mas sempre muito tímida. Acho que em todos esses anos indo aos shows do Lulu eu só disse uma vez do amor profundo que sinto por ele e da importância da sua obra na minha vida. É uma honra fazer parte dessa homenagem
F.S- Quais seus álbuns favoritos?
É difícil escolher um álbum. Além dos clássicos, eu tenho um carinho especial por algumas músicas como Fevereiro, Vale de Lágrimas, Sincero, Telegrama, Pra Você Parar, Hyperconectividade, O Que É Bom, Esse Brilho Em Seu Olhar e adoro as versões dele de Caso Sério e Fullgás. E cada uma delas está num álbum diferente.
F.S- Se pudesse definir Lulu, como definiria?
Acho ele um artista incrível que atravessa gerações com suas canções. Definiria como um gênio encantador.
F.S - Você já fez cenários para quais artistas? Qual o maior desafio deste, do show "Milton Canta Lulu" em especial?
Eu trabalhei pra muitos artistas, inclusive o Milton, mas fazendo sites e projetos gráficos. Cenários eu já tinha feito pra teatro, e cuidei da cenografia de uma casa noturna em São Paulo durante muitos anos, mas nunca tinha feito um cenário de show. O maior desafio deste projeto foi o prazo entre o dia que decidimos fazer, e a estreia. Foram só dois meses e tudo foi produzido artesanalmente. Eu trabalho numa empresa grande de eventos em navios durante a semana, então eu só pude mexer com o cenário de noite e aos finais de semana. Mas deu tudo certo e ficou até melhor do que eu tinha imaginado. Um ano atrás eu estava terminando um tratamento de câncer, e estar neste lugar tão especial pra mim hoje é muito emocionante. Estou muito feliz.

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