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Trilha sonora feita de resíduos ecoa a luta de mulheres negras em In(VI)sível

   


 Voz-Jullya Graciela estreia espetáculo In(VI)sível, que estreia nos dias 9 e 10 de julho, em Brasília. A montagem utiliza uma trilha sonora experimental criada a partir de materiais descartáveis, transformando sons e ruídos em parte essencial da narrativa sobre memória, resistência e invisibilidade
Foto: Matts Nascimento


     O espetáculo In(VI)sível, que estreia nos dias 9 e 10 de julho, no Teatro Casa dos Quatro, em Brasília, aposta em uma trilha sonora construída a partir de experimentações sonoras para ampliar a potência de sua narrativa. A montagem utiliza materiais descartáveis como instrumentos, transformando o lixo em matéria sonora e simbólica para contar a história de mulheres negras e marginalizadas.

A sonoplastia nasce de uma pesquisa que faz dos resíduos um elemento dramatúrgico. Objetos descartados produzem ruídos, texturas e atmosferas que dialogam diretamente com as cenas, reforçando o discurso do espetáculo sobre invisibilidade, exclusão e resistência.

Em contraponto aos sons ásperos criados a partir do lixo, um violão surge como espaço de respiro e delicadeza. O instrumento atravessa a encenação oferecendo momentos de afeto e sensibilidade, sem perder de vista a força política da narrativa.

A responsável pela sonoplastia é a musicista Anna Moura, que também assina a composição das letras e melodias do espetáculo. As canções foram construídas de forma coletiva, fortalecendo o caráter colaborativo da montagem e ampliando o diálogo entre música, dramaturgia e atuação.

O espetáculo parte da história de Janaína para provocar reflexões sobre aquilo que a sociedade escolhe descartar — não apenas objetos, mas também pessoas, histórias e memórias. Inspirada nas trajetórias de mulheres como Carolina Maria de Jesus e Estamira, a peça transforma o "lixo" em metáfora das violências estruturais que atravessam mulheres negras e periféricas, mas também em território de resistência, esperança e reconstrução. Para a atriz, dramaturga e coordenadora geral Jullya Graciela, a obra dialoga com uma luta histórica que permanece atual.

"Eu vejo essa luta como uma continuidade. Nós, mulheres negras e marginalizadas, sempre estivemos lutando para existir, para sermos vistas e ouvidas. Isso não acontece apenas no campo político, mas também no cotidiano, no direito de amar, de criar, de ocupar espaços e de sermos respeitadas em nossas subjetividades.", afirma  Jullya que fala ainda sobre os avanços conquistados nas últimas décadas, mas ressalta que ainda há um longo caminho pela frente.

"Hoje temos acesso à universidade, mulheres negras produzindo arte, escrevendo suas próprias narrativas e ocupando lugares que antes nos eram negados. Isso é muito potente. Mas ainda é pouco diante do tamanho da violência estrutural que atravessa nossos corpos."

Ela destaca que os desafios seguem sendo o enfrentamento ao racismo, ao machismo, à lesbofobia e à pobreza, mas aponta um aspecto ainda mais profundo.

"Muitas vezes a luta não é apenas por direitos, mas também pelo direito de sentir, de descansar, de existir sem precisar sobreviver o tempo todo."

Com direção de Daniel Landim e Marcelo Barbosa e dramaturgia assinada por Carlos William e Jullya Graciela, In(VI)sível propõe uma experiência em que palavra, corpo, imagem e música se fundem para dar voz às histórias frequentemente silenciadas.

Após as apresentações em Brasília, o espetáculo seguirá para as Regiões Administrativas de Taguatinga, Ceilândia e Gama. A entrada é gratuita, e o projeto é realizado com recursos do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal.

Serviço

In(VI)sível
Quando: 9 e 10 de julho, às 20h (aberto ao público)
Roda de conversa: 10 de julho, às 15h, com pacientes do CAPS
Onde:Teatro Casa dos Quatro
SCLRN 708 Bloco F, Loja 1 – Asa Norte – Brasília (DF)
Classificação: 14 anos

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