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Jhonny Não Quer Estar Certo: Nasce um trovador da Capital do Brasil

    


Lirismo - Compositor brasiliense publica em seu YouTube suas criações, trazendo para as letras toda poesia característica da produção musical da capital do país
Foto: arquivo Jhonny Não Quer Estar Certo


        No início da década de 1970, o cantor e compositor Paulo Diniz, inspirado pela experiência vivida por Caetano Veloso no exílio, compôs, em parceria com seu amigo Odibar, "I Wanna Go Back to Bahia", música que se tornou símbolo da resistência emocional de todos aqueles que um dia foram afastados de suas terras. Do interior de São Paulo para as redes, um jovem publica um vídeo cantando que quer voltar para Brasília, com cenas da capital, sentindo o frio paulista e uma saudade sem fim do sol dourado da cidade.

Em uma viagem pelo canal de Jhonny Não Quer Estar Certo, é possível conferir composições como "Poderia Ser Seu Nome Nessa Música", "O Fim do Fim", "O Mundo é uma Bolha Social" e "SOFS", lançada há apenas dois dias. São vídeos caseiros, feitos a partir da visão do compositor sobre o mundo ou, como é classificado no cinema, em um plano subjetivo. Criado recentemente, o canal reúne composições autorais produzidas de forma independente, com vídeos gravados e editados pelo próprio artista. Entre reflexões sobre política, afetos e cotidiano, as músicas misturam Rock, MPB e influências da cena de Brasília.

Na mesma frequência seguem as letras das músicas, com toda a subjetividade do compositor, um forte senso crítico e uma combinação rica de palavras, num lirismo que dialoga com a tradição de trovadores como Renato Russo. Quem as assina é Pedro Trindade, de 29 anos, natural de Brasília e atualmente morador de Campinas. Formado em Engenharia Eletrônica e Matemática, mudou-se para Campinas para trabalhar no acelerador de partículas.

"Sou uma pessoa de exatas e explorar essa essência mais subjetiva sempre foi uma forma de unir as duas coisas, subvertendo a ideia de que matemática é só lógica pura e fria. É a mais humana das exatas, porque é basicamente poesia, linguagem. Eu sou uma pessoa bastante politizada e crítica, e muitas vezes minhas letras refletem isso também. Além disso, geralmente moldo o estilo da forma como estou compondo para se adequar a quem eu quero que escute", lembra. Ele cita a pegada dos Mutantes na recém-lançada "Zoé" e conta ainda sobre a formação do senso crítico de quem cresce na capital do país.

"Existe uma sutileza estética e um entendimento que permeiam as relações de poder e que já são injetados nas veias de quem cresce no centro de tanta comoção arquitetônica e política. Por exemplo, aos poucos, a estrutura do ambiente em que a gente trabalhava foi sendo modificada e ficou parecendo um grande call center. Aquelas luzes brancas, câmeras para todo canto, um ambiente enfileirado e amontoado de mesas parecem incomodar especialmente a mim, mas não só. Conversando com meus amigos da UnB, do curso de Arquitetura, eles me indicaram um livro muito bom chamado 'Humanizar', de Thomas Heatherwick, que conseguiu dar as palavras que eu não estava encontrando para expressar o meu incômodo. Eu acho exatamente que é para isso que servem a música, a linguagem e as ciências. Amar e mudar as coisas, diria Belchior", conta.

Pedro, ou melhor, Jhonny, começou a tocar violão aos 12 anos, aprendendo o básico para acompanhar a família nas rodas de violão, tocando os clássicos da música popular brasileira. Essa foi a forma que encontrou para se socializar, apaixonando-se em seguida pela obra do poeta Renato Russo. A partir daí, assimilou o lirismo como parte de si, tendo como norte uma forma de escrever que leva a uma viagem introspectiva, à reflexão sobre o presente ou até mesmo a uma homenagem para alguém próximo. À medida que sentia algo intenso ou a necessidade de dizer algo a alguém, transformava esses sentimentos em composições.

"'Eu Quero Voltar pra Brasília' nasce exatamente disso. É uma reviravolta em 'Eu Quero Voltar pra Bahia', do Paulo Diniz, que eu só conheço por causa dessas rodinhas de violão na infância, ouvindo meus tios tocarem e cantarem. Eu sempre gravava as músicas no celular e mandava para as pessoas. Aí decidi começar a produzir, baixei softwares livres de edição de vídeo e música e ainda estou aprendendo. Quero fazer meu canal crescer e lançar as músicas nas plataformas de streaming, apesar de eu ainda não saber como funciona todo esse processo (risos). Ser de exatas não ajuda nessa etapa", diz o jovem, que lembra ainda outro momento em que Renato Russo foi determinante em sua história de vida.

O nome artístico escolhido vem de "Dezesseis", lançada em 1996 pela Legião Urbana, no álbum "A Tempestade ou O Livro dos Dias", que traz como faixa incidental "Strawberry Fields Forever", de Lennon e McCartney. A música narra a história de John Roberto, o Johnny, que namorava todas as meninas da Asa Sul e que, quando pegava no violão, conquistava a todos.

"O nome 'Jhonny Não Quer Estar Certo' vem de um apelido de infância, por causa da música 'Dezesseis', da Legião Urbana. Eu estava sempre tocando violão por aí para o pessoal e para as garotinhas (risos), e me diziam que eu provavelmente ia morrer de coração partido, porque eu estava sempre me apaixonando e sofrendo. De fato, isso ainda não mudou, só que agora de uma maneira mais plural: meninos, meninas e tudo o que está no meio (risos). Aí peguei isso e pensei que era um bom jogo de palavras com 'Johnny B. Goode', 'Johnny Don't Be Good' e 'Jhonny Não Quer Estar Certo'. Foi nessa linha", diverte-se, afirmando ainda estar estreando no universo da música online.

"Eu ainda estou aprendendo como compartilhar essas músicas nesse ecossistema tão louco das redes sociais, em que está todo mundo disputando atenção. Mas, ao mesmo tempo, imagino que posso encontrar bastante gente que simpatize com as letras e que elas passem a significar algo para essas pessoas. Tem uma frase que eu sempre carrego comigo: 'Uma música não pode mudar o mundo, mas eu conheço várias que mudaram o meu'."

Enquanto aprende a navegar pelo universo das plataformas digitais, Jhonny segue fazendo o que começou ainda nas rodas de violão da infância: transformar inquietações em canções. Se elas encontrarão milhares de ouvintes ou apenas algumas dezenas, ainda é cedo para saber. Mas a intenção já está clara desde a primeira postagem: fazer com que alguém se encontre em cada verso.








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