Este ano tem sido um teste. Perdi pessoas da família, o emprego fixo continua não aparecendo, meus exames resolveram enlouquecer, um sujeito de comportamento suspeito resolveu se instalar na minha tireoide, o Hashimoto anda devorando minha vontade de levantar da cama, e outras "coisitas más", que só com muita terapia e reza pra dar conta. Não gosto de ficar bancando a coitadinha, não combina comigo, mas, como já cantava meu amor Luiz Maurício, "nem sempre é so easy se viver".
Em uma passagem pela casa dos meus pais, peguei meus LPs e os trouxe para casa. O primeiro que brotou dentre minhas relíquias foi o álbum Tudo Bem, do Lulu Santos. Fiquei olhando para os dois lados do disco, com a mesma música, e pensei: este é o single da atualidade. Nas minhas mãos estava a relíquia acima, com 12 polegadas, um chamado "single mix", uma versão estendida da música, com pouco mais de quatro minutos, feita para tocar nas rádios. Meu tesouro é um resquício da discoteca da antiga Rádio Diário. Quando ela acabou, os discos foram descartados, e meu pai salvou esse álbum para mim.
Foi a forma que Lulu encontrou, após o disco Normal, de abrir, com chave de ouro, sua entrada na RCA. Lembram do logotipo do cachorrinho diante do gramofone?
A balada romântica Tudo Bem foi lançada em 1986, dando indícios do que viria pela frente no álbum Lulu, do mesmo ano, sobre o qual ainda falarei por aqui. Na banda, Lulu contava com Nico Rezende nos teclados, Paul de Castro na guitarra, Arthurzinho Maia no baixo, Leo Gandelman no saxofone e os bateristas Cláudio Infante e Sérgio Herval.
A delícia de ouvir esse single é perceber como a balada é desenvolvida com perfeição por todos os músicos. Dá para notar o teclado de Nico, a bateria original, que nenhum músico ao longo desses anos conseguiu reproduzir. Desculpe, Lulu, mas a original é marcante. A guitarra de Paul traz uma pegada de rock progressivo, enquanto o sax de Leo chega naquele estilo "sou do jazz, mas sou da bossa". Sem contar a interpretação de Lulu, com um gritinho "à la Michael Jackson" no meio da canção. Os arranjos são assinados pelo hitmaker, Rezende e Gandelman, "sob os auspícios" do produtor Mariozinho Rocha.
Ouvir essa música com atenção deixa a vida um pouco mais easy de se viver. Na verdade, ter um peito onde se encostar e esquecer do mundo, como diz a canção, em meio a loucuras quaisquer, deveria ser obrigatório. É um artigo de luxo ter um ponto de paz onde possamos nos curar de todas as dores desta vida, né?
Sorte de quem tem. Mais sorte ainda de quem já pôde ouvir essa versão ao vivo, com Lulu, diretamente do palco, como esta que vos escreve. Aliás, seu Luiz Maurício, bora planejar uma turnê pelo Brasil?
Acompanhei daqui, emocionada, teu samba em Berlim, tuas andanças pela Holanda, por Paris e por Portugal, além das aventuras da Caravana do Delírio pelo deserto. Olha, seguindo a canção sua e de Nelsinho, está faltando uma bela dançarina para integrar o grupo. Eu me candidato. Sei revirar o ventre em danças ancestrais e toco pandeiro egípcio. Nua, não, porque ninguém merece ser ofuscado por minha brancura tom palmito. Risos.
Para ilustrar essa saga, que já está quase maior que a do Senhor dos Anéis, trago o videoclipe de Tudo Bem, lançado há 40 anos no programa Fantástico, da Rede Globo.
P.S.: Veja a alegria desta fã cantando sua música na turnê Barítono, em 2024. Já se passaram dois anos. Saudade, poxa.

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