A pintora se depara com a tela em branco à sua frente. Tem nas mãos uma paleta com todas as cores. Escolhe, para abrir a primeira obra de sua história, a cor vermelha. Cor da paixão, da energia, da frequência cardíaca, que faz o mundo vibrar. Deu a ela o nome de "Álbum Vermelho", lançamento que "pintou" em todas as plataformas no dia 6 de agosto. A artista em questão é a artista visual, designer, musicista, cantora e compositora Julia Guedes. A jovem mineira já havia dado um gostinho do que viria pela frente um mês antes, ao lançar o single triplo "Contra o Medo". Já de cara, deixava nítida sua verve de compositora que busca seu próprio caminho artístico, passando por trajetos diversos, conectando o ato de compor com o que sente, com o que produz, numa sinergia, deixando escapar, em forma de música, uma essência de quem carrega no vermelho do sangue a tradição da música e leva adiante o legado de um movimento musical responsável pela formação de grande parte dos músicos brasileiros. Em "Contra o Medo", deixou nítida a influência setentista, com ares de Tutti Frutti, Tropicalismo e as participações especiais de Tori, Dora Morelenbaum e do músico, maestro, compositor e arranjador Wagner Tiso, responsável pelos arranjos de "Zoim", canção na qual a compositora traz na letra uma autoanálise, como se saísse de si e se observasse, buscando um perdão para si mesma, com uma delicadeza própria dos acordes de Tiso. "Poesia Total" fecha o trio com a atmosfera paz e amor e a liberdade de experimentação musical, típica dos movimentos musicais da década de setenta.
Já "Álbum Vermelho" quebra toda essa lisergia musical com uma guitarra conhecida, algo que lembra jovens artistas que um dia se jogaram no mundo, "já estando com o pé na estrada". E é um deles o responsável pela guitarra elétrica, sendo impossível não lembrar de "Nada Será como Antes", música do clássico "Clube da Esquina", faixa na qual também assinou o mesmo instrumento.
Júlia Guedes traz sua essência criativa e livre em "Gata do Mato", canção que, com toda certeza, Rita Lee gravaria sem pensar duas vezes, pois canta uma gata displicente, num salto torto, desconfiada, feiticeira, na espreita por seu gato. "Chuva e Sol" segue na mesma linha, e "Estranha Nuvem", também com a participação de Tori nos vocais, ainda na atmosfera dos anos setenta, num diálogo com o contemporâneo, como já tinha adiantado em entrevista ao Falando em Sol, em abril de 2024, quando estava em estúdio. O lançamento de ontem não nasceu do dia para a noite. Cada pincelada na tela do "Álbum Vermelho" foi dada com todo cuidado, numa escolha cuidadosa, e um trabalho com doze faixas que levou 10 anos para chegar às plataformas de música. Para a concretização deste sonho, Júlia contou com uma campanha de financiamento coletivo, a produção de Antonio Neves, Paulo Emmery e músicos supercompetentes como Lucca Noacco, Estevan Barbosa, Cainã Mendonça, Tommy Coelho, Jorge Contentino, Antonio Fisherband e Lucas Videla.
É interessante ainda observar a maturidade nas letras da compositora, que tem apenas 24 anos, mas que, em "Tango dos Homens" e "Sus Mareas" (em espanhol e com a participação de Luiza Brina, que, com Clara Delgado, assina a autoria com Guedes), traz à tona uma mulher que busca no mundo da música encontrar o seu lugar num voo solo.
Viajando longe no vermelho do álbum, vejo uma fresta de um céu azul de brigadeiro se abrir. Um piano na introdução de "Notas de Avião" me dá a impressão de que, a qualquer momento, Bituca surgirá fazendo um vocalize na frequência sonora que só os anjos conseguem atingir. Quando o voo atinge aproximadamente 51 mil pés, um banjo que parece ter saído do LP "Contos da Lua Vaga", tocado por Gabriel Guedes, pai de Júlia e afilhado de Milton Nascimento, abre a neblina sonora para a voz de Julia, cantando uma homenagem para o avô, o cantor e compositor Beto Guedes, apaixonado pela aviação, e que fez e ainda faz muitas gerações voarem em suas notas de avião de levar distante carregando almas sob o sol. "Se essa paixão é coisa de geração, coisa do coração", não sei. Mas o "voo é lindo se tem onde pousar", e a artista, da terceira geração de compositores da família Guedes (Godofredo, Beto, Gabriel e Ian), mostra que, sim, tem onde pousar na música brasileira contemporânea. É Beto quem assina a guitarra elétrica de "Vermelho e Sem Nome", com sua assinatura inconfundível.
Antes de assinar o nome da obra, a artista abre a folha de um livro e traz, como última faixa, "A Página do Relâmpago Elétrico", canção de seu avô e de Ronaldo Bastos, lançada em álbum homônimo de 1977, deixando a entender que outras folhas serão abertas e outras telas ainda serão coloridas. Mais que isso. Evidencia que a bucha que mantém acesa o balão que leva adiante o Clube da Esquina está mais acesa do que nunca. Não num disco de homenagens, mas em quem traz em sua alma o poder da criação e do livre amor pela música. Que venham os próximos.

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