Sou fã incondicional dos filmes estrelados por Julia Roberts. E um deles tem um diálogo que sempre me vinha de volta à cabeça quando, na vida, eu me via em uma situação de competição no amor.
No filme Casamento do Meu Melhor Amigo, o personagem vivido por Rupert Everett (meu crush) diz à jornalista e crítica gastronômica Julienne, vivida por Roberts: “Você vai a um restaurante e tem lá crème brûlée. Todo elaborado, chique, requintado. Mas você prefere a gelatina. Sem graça, sem glamour, apenas uma gelatina. Pode ter o doce mais rico do mundo, porém só a gelatina te faz feliz”, encerra, numa tentativa de explicar que a competição dela com a noiva do melhor amigo seria em vão.
Depois de ver esse filme, passei a sofrer menos todas as vezes nas quais não era escolhida. Podemos ser lindas, cheirosas, carinhosas, inteligentes, respeitando a essência do outro, de bom papo, “minas” de fé. Se o outro prefere o caos, o desrespeito, o controle, a agressão, o desleixo, é ali que irá ficar. Sabem aquele papo de que não adianta explicar para a mosca que o lixo não é legal?
A mulher pode ter olhos verdes, frutas no cabelo, ser conhecida mundialmente como Brazilian Bombshell e, um dia, ser trocada pela secretária de Walt Disney (não desmerecendo de forma alguma a moça), mas essa foi a escolha de Aloysio de Oliveira.
O nome do cantor, compositor e produtor veio à tona aqui em casa no dia em que meu caçula, indignado, veio me perguntar: “Mãe, quem é esse homem que faz Carmen/Anitta chorar no videoclipe?”
Expliquei para o pequeno quem era Oliveira e liguei no Disney Plus para que ele pudesse conferir Você Já Foi à Bahia?, estrelado por Aurora Miranda, irmã de Carmen, e por Aloysio de Oliveira. Antes, contei sobre o fato de o músico ser integrante do Bando da Lua, banda que acompanhava a Pequena Notável em seus shows e que foi levada por ela para os Estados Unidos, pois somente eles saberiam conferir às canções o verdadeiro ritmo brasileiro.
Mas será que, fora o fato de ter sido o grande amor de Miranda, Aloysio de Oliveira tem sua importância na história da MPB reconhecida?
O músico foi uma ponte entre diferentes momentos da música brasileira. Antes de ser produtor, Aloysio integrou o Bando da Lua e acompanhou Carmen Miranda nos Estados Unidos. Depois, voltou ao Brasil e passou a atuar diretamente na indústria fonográfica, ajudando a conectar a tradição da música popular à modernização que resultaria na MPB dos anos 1960. Também ajudou a transformar a Bossa Nova em um movimento musical conhecidíssimo no Brasil e no exterior. Como diretor artístico da Odeon, participou da produção de gravações fundamentais de João Gilberto, incluindo o LP Chega de Saudade (1959), um dos marcos do movimento. Em 1963, criou a gravadora Elenco, tornando-se uma espécie de casa da Bossa Nova abrindo alas para inúmeros artistas. Por ela, lançou mais de 60 discos em poucos anos e reuniu nomes como Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Baden Powell, João Donato, Nara Leão, Edu Lobo, Sylvia Telles e Sergio Mendes. Teve ainda o papel de curador da nova música brasileira percebendo que havia uma geração de compositores e intérpretes criando uma linguagem diferente e criou espaço para que esses artistas gravassem e circulassem.
Fora tudo isso, foi um grande inovador no quesito capas de disco. As capas da Elenco, com o trabalho gráfico de César Villela e do fotógrafo Chico Pereira, estabeleceram uma identidade visual moderna e sofisticada que se tornou parte da própria estética da Bossa Nova.
O fato de ter escolhido a gelatina em vez do crème brûlée em sua vida pessoal não diminui de forma alguma a grandeza de Aloysio. Com Tom Jobim, compôs uma de minhas músicas favoritas, que divido com vocês na minha Quinta da Saudade. Dindi foi lançada em 1959, por Sylvia Telles, tornou-se um clássico da Bossa Nova e foi gravada ainda por nomes como Maria Bethânia, Gal Costa, Maysa, Emílio Santiago, Frank Sinatra e Ella Fitzgerald.

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