Entre aquilo que somos por dentro e o mundo que nos cerca existe uma constante fricção. É justamente nesse espaço de conflito que nasceu “Aonde Vamos Daqui”, álbum de estreia do duo AZÚ, formado por Luíza Abe e Rodrigo Zanettini. Lançado nas plataformas digitais em 17 de setembro, o trabalho parte de questões íntimas para falar também sobre o coletivo. A dupla observa as relações humanas, as marcas deixadas pela ancestralidade e os efeitos de uma sociedade cada vez mais acelerada, tecnológica e guiada pelas aparências.
Musicalmente, o AZÚ constrói uma ponte entre a acessibilidade da música pop e arranjos instrumentais elaborados, com presença marcante de metais, sopros e bases rítmicas. O resultado é um disco que consegue transitar entre a densidade de suas letras e a energia do groove e da música disco.
Nas composições de “Aonde Vamos Daqui”, a cidade contemporânea aparece como cenário de pressa, distanciamento e artificialidade. O consumo imediato de experiências, a exposição constante e o isolamento provocado pela tecnologia são traduzidos em imagens e metáforas que revelam sentimentos como frustração, desabrigo e entrega.
Mas, diante desse mundo acelerado, o álbum encontra na ancestralidade e nos vínculos familiares uma espécie de ponto de sustentação. Pais e avós aparecem como parte fundamental da trajetória que trouxe os integrantes do duo até o presente. Ao mesmo tempo, essa herança não é tratada de maneira passiva. O disco também fala sobre a necessidade de amadurecer, conquistar autonomia e romper relações de dependência para seguir adiante sem perder a própria identidade.
Uma das características mais interessantes do álbum está justamente no contraste entre seus temas e sua sonoridade. Enquanto as letras mergulham em questões existenciais e nas transformações das relações humanas, os arranjos convidam o corpo a se movimentar. O groove, a disco e a força dos metais criam uma atmosfera dançante para assuntos que poderiam facilmente permanecer restritos à introspecção. A proposta é assumir que sentimentos aparentemente opostos podem coexistir: beleza e opacidade, alegria e melancolia, nascimento e morte, permanência e transformação.
Entre as referências que atravessam o universo musical da dupla estão nomes como Djavan, Milton Nascimento, Gilberto Gil, Stevie Wonder, Jacob Collier e Banda Black Rio. Essas influências ajudam a explicar a combinação entre sofisticação harmônica, força rítmica e uma busca por comunicação direta com quem escuta.
Em “Aonde Vamos Daqui”, a felicidade também aparece distante de uma ideia idealizada ou permanente. Ela está relacionada a pequenos acontecimentos e estados de presença: o silêncio, o contato com a terra, o riso compartilhado e a convivência com aqueles que fazem parte da caminhada.

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