O que teriam São José dos Campos, Guaratinguetá, Aparecida e Cachoeira Paulista em comum, além de serem integrantes da região metropolitana do Vale do Paraíba?
Estas cidades fazem parte do DNA de um dos nomes mais produtivos da música de concerto brasileira contemporânea. Este ano, essa forte conexão com a região ganhou um novo capítulo com o lançamento de “Synesthetic Nature: No. 1 for Clarinet and Cello | No. 2 for String Quartet”, álbum autoral de João Marcondes, lançado pelo selo Azul Music.
Antes de construir uma trajetória que reúne mais de 25 discos lançados, mais de 60 livros publicados e mais de 700 obras compostas, além de uma carreira que transita entre música de concerto, jazz, canção e educação musical, João Marcondes era um menino do Vale do Paraíba.
Nascido em São Paulo, o compositor mantém uma história familiar, afetiva e musical profundamente ligada à região. A mãe, Lúcia Helena Marton, nasceu em Cachoeira Paulista, assim como os avós maternos. O pai, João Marcondes da Silva Filho, é de Guaratinguetá, enquanto o avô, também João Marcondes, nasceu em São José dos Campos. O próprio nome do artista homenageia o tio-avô Cônego João Marcondes Guimarães, personagem lembrado na Praça da Matriz de São José dos Campos.
Mais do que uma herança familiar, porém, o Vale foi espaço de formação. João viveu cerca de dez anos em São José dos Campos, pedalou pelas cidades da região, nadou no Rio Paraíba, empinou pipa, estudou violão e começou ali a construir o repertório que, mais tarde, o levaria a uma carreira de alcance nacional e internacional.
É dessa relação entre território, memória e criação que nasce o simbolismo de "Synesthetic Nature": a natureza como matéria-prima para a música. Na obra, João Marcondes parte dos quatro elementos (ar, água, fogo e terra) para desenvolver uma experiência musical inspirada na sinestesia, conceito que aproxima diferentes percepções sensoriais. A proposta do compositor parte de perguntas como:" é possível ouvir uma temperatura? Sentir uma textura por meio de um som? Imaginar uma cor a partir de uma melodia?"
No álbum, cada elemento assume uma dimensão simbólica e expressiva. O ar está associado ao campo das ideias; a água, ao sentimento; o fogo, ao conflito; e a terra, à pacificação. Essas referências não permanecem apenas no campo conceitual: elas orientam atmosferas, movimentos, timbres, registros, densidades e silêncios.
O resultado é um trabalho que convida o ouvinte a experimentar a música para além da escuta tradicional, estabelecendo relações entre som, imaginação e percepção. O álbum reúne sete peças inéditas, distribuídas em oito fonogramas, organizadas em duas obras de formação camerística: uma para clarinete e violoncelo e outra para quarteto de cordas.
A primeira obra conta com a interpretação de Sérgio Burgani, primeiro clarinetista da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (OSESP), e do violoncelista Joel Silva de Souza, professor de violoncelo da Unesp e integrante da Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo (OSM).
A segunda é interpretada pelo Quarteto Topázio, formado por músicos da OSESP. A escolha desses conjuntos reforça o caráter camerístico do projeto e valoriza o diálogo entre composição contemporânea e a expressividade dos instrumentos acústicos.
A trajetória de João Marcondes também evidencia a importância dos espaços de formação musical fora dos grandes centros. Foi em São José dos Campos que parte fundamental de sua educação artística começou a tomar forma. O compositor estudou na Escola Carlos Saloni, na Vila Ema, passou pela Escola de Música Melodia e cursou Técnico em Violão no Conservatório Villa-Lobos. Na região, também estabeleceu uma das parcerias importantes de sua carreira, com Joca Freire, com quem compôs e lançou trabalhos.
Ao longo das décadas, Marcondes ampliou sua atuação para além da composição. Tornou-se educador, produtor, editor e gestor de ensino musical. Atualmente, atua na Faculdade e Conservatório Souza Lima, como coordenador pedagógico e assistente de direção. À frente da BAC Discos, produziu e lançou artistas como Douglas Germano, Zé de Riba e Paula Mirhan. Também criou os Núcleos de Compositores, projetos voltados à aproximação de jovens artistas com os processos de criação, produção e circulação musical.
O lançamento de "Synesthetic Nature" acontece em uma fase especialmente intensa da carreira do compositor. Somente em 2026, João Marcondes tem oito álbuns e quatro livros previstos, em uma produção que conecta composição, educação, pesquisa e formação de novas gerações.Seu trabalho também ultrapassa as fronteiras brasileiras. Marcondes recebeu dois Prêmios Profissionais da Música e, em 2025, foi homenageado no Peru como principal educador musical da América Latina, em reconhecimento realizado pelo CLAEM e pela ALAEMUS. Com "Synesthetic Nature", o artista inaugura uma nova série dedicada à relação entre música, natureza e percepção sensorial. É uma obra que, ao mesmo tempo em que explora possibilidades da criação contemporânea, carrega em sua origem a memória de um território: o Vale do Paraíba, onde o compositor começou a ouvir o mundo e a transformá-lo em som.

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