Quinta da Saudade : " Cérebro Eletrônico nenhum me dá socorro em meu caminho inevitável para a morte..."
Não fui ao Rock in Rio.
Fiquei de plantão de frente para a TV na segunda, enquanto as redes sociais eram dominadas pela trend dos anos 80. Tudo orquestrado pela Inteligência Artificial, a quem carinhosamente apelidei de Cérebro Eletrônico, uma homenagem ao Gilberto Gil.
É engraçado como essa música, lá na adolescência, fazia sentido para mim quando pensava na chegada da internet (people, fui teen nos anos 90), e inclusive usei trechos dela numa redação do colégio, justificando que jamais o contato online substituiria o físico. Algo paradoxal, porque, no dia em que Gil participou do bate-papo no UOL, "pela internet" (rs), a tiete de Mogi estava lá, tentando chamar a atenção dele. Ser do signo de Gêmeos é ter dentro de si um paradoxo. Eu penso, e posso.
Agora, com o ChatGPT, tenho uma relação de amor e ódio. E provoco ele o tempo todo. Já inclusive tive uma DR feia, porque ele teima em dar informações que não são verdadeiras. Se acha humano, criativo, bacana. Mas ele só funciona porque, detrás dele, tem um ser humano colocando suas ideias, que ganharam o nome de prompt. Aliás, adoro quando alguém me pergunta: qual prompt você usou?
Cara, só escrevi: faça isso, com uma ideia que veio do meu cérebro, desprovido de Inteligência Artificial. Dia desses, pedi ao ChatGPT: faça um texto como se fosse a Tatiana Valente, do Falando em Sol. Ele primeiro encheu minha bola, me comparou ao Nelson Motta na habilidade de escrever crônicas musicais. Nelsinho, meu xodó, não tenho a pretensão de nada, papo "xavequeiro" da máquina, viu?
Depois, me escreveu um texto cheio de palavras melosas sobre um lançamento. Ora, bolas, e lá sou eu melosa? Minha sensibilidade é uma coisa que ultrapassa frases prontas. Escuto uma música. Dentro de mim, tem algo despertado. Dali saem os textos que publico aqui. Só eu posso sentir, só eu posso chorar quando estou triste, só EU.
Voltando ao evento de segunda, sentadinha no sofá, vibrei com o discurso de Vanessa da Mata sobre intolerância. Isso é ser artista: mostrar que veio ao mundo para fazer pensar. Menescal, genial em qualquer década. Luiza Sonza... tenho tanto pra falar... Não desmerecer, sinto que é uma potência, muito mal orientada, sem rumo dentro do que chama de pop, com a dona aranha subindo pela parede.
Roupa Nova me fez chorar logo de cara. Mais ainda ao ouvir "Coração Pirata", composição de Nando e Aldir Blanc (que completaria 80 anos no dia 2 de setembro). Daí, me entrou no palco Guilherme Arantes, com a canção que sempre ouvi na infância ser meu tema: "eu vivo sempre no mundo da lua..."
Mas nada me emocionou mais que a presença resiliente de Gil no palco. Apesar de tudo. Estava ali. Entregando o seu melhor, mostrando o grande artista que é. E os grandes reconhecem aqueles que fizeram parte de sua história. Deixou isso evidente quando chamou Arnolpho Lima Filho para dividir com ele "Vamos Fugir". Fugi junto deles para a década de 80, quando juntos fizeram os álbuns A Gente Precisa Ver o Luar (1981); "Um Banda Um" (1982); "Extra" (1983), e Raça Humana, promovendo para nós, ouvintes mortais, uma mistura de ritmos como o funk, reggae, forró, eletrônicos e tudo o que coubesse.
Liminha e Gil no palco fecharam meu feriado com chave de ouro. Mais eficientes que qualquer trend orquestrada pelo Cérebro Eletrônico. Canção que divido com vocês aqui, na minha Quinta da Saudade hoje. Para que percebam a atemporalidade de Gil e como esse MESTRE é visionário. Lançou em 1969, ano comandado pelo cruel AI-5, o LP homônimo e contou, nos arranjos, com o genial Rogério Duprat. A canção, do fim da década de 60, pode ser crônica de qualquer geração.
P.S: Divido com vocês aqui o papo que tive com o chat, após redigir esse texto...
" Vai ficar bravo comigo chat pq falei mal de você?

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