A música pode nascer de diferentes formas, de diferentes inspirações. às vezes, um disco é uma forma de se contar uma história . “Anam Fáin”, álbum que chegou às plataformas de streaming no dia 30 de setembro, foi a forma que o músico e compositor Alexandre Escher encontrou para construir uma narrativa que atravessa o folk celta, o rock progressivo e elementos da música brasileira. Músico nascido no Rio Grande do Sul, mas radicado no Pará, Escher começou a desenvolver o projeto a partir de uma antiga admiração pelo folk celta e pelas melodias que, para ele, remetiam às trilhas sonoras de filmes e séries ambientados em outros tempos.
“As músicas nasceram primeiramente de uma admiração que sempre tive, não só pelo estilo do folk celta, mas pela melodia das músicas, que sempre remetiam às trilhas sonoras de filmes, de séries que lembravam uma coisa antiga, medieval. Então comecei a estudar como eles construíam estas músicas”, conta.
O processo de pesquisa levou aproximadamente dois anos. Durante esse período, o músico se dedicou ao estudo de ritmos e melodias celtas. A proposta, entretanto, nunca foi produzir um álbum puramente de folk celta, mas construir uma obra que tivesse essa sonoridade como ponto de partida.
“Passei dois anos estudando ritmos e melodias celtas. Não foi suficiente, porque não é um álbum de folk celta, mas de inspiração ali”, explica.
Após desenvolver algumas das melodias, Escher interrompeu momentaneamente o processo musical para construir uma história. Foi assim que surgiu o personagem que conduz conceitualmente o álbum, o Andarilho, um sobrevivente de um naufrágio que acaba chegando acidentalmente à costa da Irlanda.
“Depois que construí algumas das melodias, parei um tempo e construí um conto. Este conto é baseado em um personagem de nome Andarilho, que acaba sendo sobrevivente de um naufrágio e vai parar acidentalmente na costa da Irlanda. As pessoas começam a chamá-lo de Andarilho”, relata.
A narrativa também está presente nas próprias faixas. Textos escritos pelo músico foram incorporados às introduções das músicas, funcionando como uma espécie de prelúdio para a jornada do personagem.
A sonoridade de “Anam Fáin” também encontra espaço no universo do rock progressivo. Durante suas pesquisas, Escher se aprofundou nas possibilidades oferecidas pelas afinações alternativas para instrumentos de cordas. Nesse caminho, encontrou referências em artistas consagrados, entre eles Jimmy Page, guitarrista do Led Zeppelin.
“Estudando essas afinações, acabei me deparando com vários documentos e vídeos de artistas muito consagrados, como Jimmy Page, guitarrista do Led Zeppelin, que usava afinações diferentes para violão em várias de suas músicas. A própria banda tinha folk em sua constituição melódica”, explica.
As diferentes afinações abriram novas possibilidades criativas para o músico, permitindo que ele explorasse instrumentos como violão, violino e viola caipira. O resultado é uma mistura que não abandona a identidade brasileira.
“Essas afinações me permitiram modificar e explorar mais o que eu gostaria em outros instrumentos, como cordas, violino, a própria viola caipira, tocada com o objetivo de fazer um folk um pouco mais diferente, mas ainda tendo sua brasilidade. Tem um pé no progressivo, um pé no folk rock, mas tem muito também de ideias brasileiras que acabaram fazendo essa miscelânea que foi o álbum.”
Apesar das inúmeras referências presentes em “Anam Fáin”, Alexandre Escher não aponta um artista específico como sua principal inspiração. O que o motivou foi, sobretudo, uma maneira de fazer música.O músico buscou recuperar uma característica presente em gravações de outros períodos, quando a tecnologia disponível era mais limitada e os artistas precisavam registrar suas performances de maneira mais orgânica.
“A minha principal inspiração é essa. Minhas músicas não têm cortes. A viola, o violão, fiz em uma gravação, não parava e voltava. Isso me deixou muito feliz com o resultado. Uma música feita por humanos, não apenas sintetizada”, afirma.
Na produção e mixagem, Escher contou com Fagner Pimentel, da Dois Mundos Produtoras. A escolha pela gravação sem cortes dialoga diretamente com a proposta de preservar a espontaneidade das interpretações e deixar que a música carregue também as imperfeições e características próprias de quem a executa.
“Anam Fáin” também nasceu de uma decisão consciente de não seguir necessariamente as fórmulas estabelecidas pela indústria musical. Em vez de pensar primeiro em números, tendências ou possibilidades de streaming, Escher priorizou aquilo que queria ouvir e sentir enquanto artista.
“Eu fiz esse álbum pensando em pessoas que curtem a música que gosto também. Não diria que fiz dentro de um nicho, mas não me preocupei com essas orientações, com muitas aspas, que o mercado dá do que será uma música que terá muito streaming, acesso, ou vai tocar bastante, ou uma música que não é comercial aos olhos de quem trabalha com marketing. “O que quis fazer foi música de verdade, que eu sentisse orgulho. Para quem quiser ouvir, está tendo uma aceitação legal das pessoas. Meu objetivo principal é ser feliz.”, afirma Alexandre, que buscou nas afinações alternativas, que inicialmente poderiam parecer apenas uma escolha técnica, uma dimensão que se tornou quase intuitiva.
“Essas afinações são meio mágicas. O que posso dizer, indo na contramão do mercado ou não, é que as pessoas se sintam tão bem como me senti fazendo, compondo, tocando e escutando. São músicas para a alma.”
Mais do que um elemento de entretenimento, a música aparece na fala de Alexandre Escher como uma parte essencial da experiência humana. Para ele, ouvir uma canção também significa acessar memórias, sensações e lugares que muitas vezes não podem ser traduzidos em palavras.
“Música para mim é tudo. Ela tem cor, tem sabor, tem fragrâncias, paletas. A gente possui, enquanto ser humano, várias trilhas sonoras para vários momentos de nossas vidas. Músicas que lembram coisas boas ou que não são tão boas assim", conta o músico que falou ainda sobre a relação entre som, memória e sentimento, essência do álbum.
“Ela é essência humana no ato de ouvir e identificar o que está ao nosso redor e pode conversar com o que está dentro de nós. É uma parte essencial do ser humano. É um órgão, um tecido que não é visível, mas está presente. Música é tudo.”

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