“Eu não vou cantar em inglês. Poxa, que saco! Eu falo essa língua o dia inteiro, não aguento mais. Não é porque eu sou professora de inglês que tenho de cantar em inglês. Eu quero ser cantora de MPB, cantar minha língua, em português”, resmungava eu para minha amiga Aline, que, dia desses, me lembrou dessa minha fala na juventude, quando era uma menina que sonhava em ser sereia.
Sim, aprendi a língua inglesa ainda menina, por escolha própria, por paixonite por uma boyband americana. Não tinha planos de fuga para a Terra do Tio Sam, afinal de contas, carrego Valente como sobrenome, e não Covarde. Porém, cantar, para mim, era a oportunidade de trazer os belos versos criados pelos gênios da nossa música. Além de ser, no canto, algo desafiador. Esta que vos escreve é movida a desafios.
Não era diferente quando me apresentava na juventude, no coral ou nos casamentos. Tirando os negro spirituals, que cantava com gosto, quando alguém vinha me empurrar uma música da Mariah Carey ou da Whitney Houston, eu emburrava. E ficava resmungando exatamente aquilo que disse ali em cima.
Sempre achei bárbara a capacidade de um letrista brasileiro de pegar uma canção em língua estrangeira e trazer seu conhecimento de mundo, seu olhar para aquela música. Inclusive, como já contei para vocês, tretei com um teacher no colégio por causa de uma versão que Lulu Santos fez para “Here Comes the Sun”. Cresci ouvindo as versões de Edgard Poças para os Menudos e, muito sincera aqui, gosto mais de muitas versões do que das canções originais.
Gosto ainda mais de algumas feitas pelo meu escritor favorito. Meu xodó, Nelson Motta, tem em seu catálogo e em sua história muitos e muitos hits que todo mundo conhece, dança e canta junto. Versões de músicas que caíram na boca e no coração do público.
“Bem Que Se Quis”, grande sucesso na voz de Marisa Monte, é versão de “E Po’ Che Fa’”, de Pino Daniele. Produzida por Nelson na juventude, Patrícia Marques fez grande sucesso com a dançante “Ficar com Você”, versão dele para “I Wanna Be Where You Are”, de Arthur Ross e Leon Ware. Outra que colocou todo mundo na pista foi Sandra de Sá, com “Soul de Verão”, versão dele para “Fame”, imortalizada na voz da diva Irene Cara. Guilherme Arantes também cantou “Alone Again”, versão do meu guru para “Alone Again (Naturally)”, de Gilbert O’Sullivan, assim como Nara Leão gravou “Cartas de Amor”, versão de “Love Letters”. Djavan deu voz a “Vida Real”, e Marina Lima, a “Veneno”, versão de “Veleno”, canção do italiano Alfredo Polacci.
Vou parar por aqui porque a lista é imensa. Nelson Motta é um dos grandes mestres das versões. Aliás, dia desses, no Instagram, fui chamada de jornalista palhaça porque comentei “Mestre” em uma entrevista do jornalista, compositor e escritor. Não levei desaforo para casa e dei como dica para o gajo, que se autoproclama nas redes (isso está na moda, né?), palpiteiro musical, que fosse ler os livros de Nelsinho antes de vir me agredir. Os livros dão outra lista, para outro texto.
Hoje, dia do aniversário do Mestre, esta fã e eterna aspirante a sereia, a mais atrapalhada, resolveu cantar. Escolhi uma canção gravada por uma geminiana que divide comigo a mesma data de aniversário.
“Eu Te Desejo Amor” é versão de Nelson Motta para “Que reste-t-il de nos amours?”, de Charles Trenet, que aprendi a cantar também em inglês, como “I Wish You Love”.
Pois é isso que te desejo, Escorpião!
Muito amor!
P.S.: Mordi a língua e resolvi cantá-la em inglês também...

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