Com o coco de Naruna Costa e Giovani Di Ganzá, belamente gravado pelo grupo de cantadeiras Clarianas, a cantora e compositora (e multi-tudo) Bruna Black formou uma animada roda de coco na Praça Dom José Gaspar, local escolhido para os shows que celebraram os dez anos do Women's Music Event, na última sexta-feira, 19 de junho. Nem preciso dizer para vocês que entrei para a roda. Não resisti. Na minha cabeça, ali ao lado da Biblioteca Mário de Andrade, meu amado folclorista, responsável por obras como Macunaíma e Pauliceia Desvairada, só me vinha à cabeça: ele deve estar todo feliz lá em cima ao ver que ali, naquele momento, a cultura popular sobressaía aos números astronômicos do streaming.
Bruna Black leva para sua música o popular: coco, maracatu, xote, tudo com um jeito empoderado de mulher que se orgulha de ser quem é. Contagia. Você que me acompanha aqui com certeza viu que, no meu Top 10 de 2025, Fulorá foi um dos meus álbuns xodós.
Coincidência ou não, o disco foi produzido pelo músico baiano Webster Santos, que, como instrumentista, participou ativamente do álbum Dindinha, produzido por Zeca Baleiro e Tatá Fernandes e lançado por Ceumar no ano de 1999. Foi esse álbum que me introduziu ao coco.
Pausa pedagógica: estou falando aqui de coco, coco, coco. Mas, para quem não sabe, o coco, e o Falando em Sol tem leitores do mundo todo que aqui encontram informações sobre a nossa cultura, é uma dança tradicional do Nordeste do Brasil que une música, canto, poesia e sapateado, normalmente acontecendo em rodas ou filas. Herança da fusão dos batuques africanos com bailados indígenas, era uma dança coletiva que acontecia nos chãos das senzalas e celebrava a vida, sabemos muito bem o quanto ela era sofrida, nos engenhos de açúcar.
O primeiro coco que ouvi na minha vida foi na voz da minha Dindinha, a quem chamo assim porque é, para mim, uma referência vocal: Ceumar. "Gírias do Norte", de Onildo Almeida e Jacinto Silva, fazia parte das treze faixas do CD que chegou à minha casa assim que a cantora se apresentou no Baratotal, em Mogi das Cruzes. Era um presente do produtor do show para meu pai, que sempre apoiou eventos artísticos na cidade.
Eu, menina de 18 anos recém-completados, estudava Letras e trazia cá dentro o sonho de ser cantora. Lembro-me de pegar o CD, levá-lo para meu quarto, que parecia um acampamento hippie com luas e estrelas coladas no teto, e ali, de posse dos meus fones de ouvido, fazer a audição do álbum como quem, com muita atenção, assistia a uma palestra na faculdade.
Sendo sincera com vocês, prestei mais atenção nos álbuns que ouvia do que nas aulas da faculdade. O curso me daria um diploma. A música alimentava meus sonhos.
Ali, completamente fascinada, aprendi canções que trago na minha memória afetiva: "Dindinha", "Cantiga", "Boi de Haxixe" (Zeca Baleiro), "Pecadinhos" (Zeca Baleiro e Tatá Fernandes), "Banzo" (Itamar Assumpção), "Galope Rasante" (Zé Ramalho), "As Perigosas" e "Rosa Maria" (Josias Sobrinho), "Olha pro Céu" (Luiz Gonzaga e José Fernandes), "Geofrey, a Lenda do Ginete" (Chico César), "Maldito Costume" (Sinhô) e, para fechar com chave de ouro esse baú de composições riquíssimas, Ceumar, com sua afinação precisa, cantava "Let It Grow", da banda de rock progressivo dos anos 1970 Renaissance.
Dindinha tornou-se meu álbum de referência. Se um dia o universo me desse a oportunidade de cantar, meu repertório teria como norte todas aquelas referências. Cultura popular, rock progressivo. Aquilo me definia musicalmente.
Tudo isso veio à tona na última sexta-feira, naquela roda de coco. Minha menina interior tirou o peso dos meus quarenta e cinco anos, completados na quinta-feira, ainda sentindo a partida do pai. As palmas batidas e o canto que saiu da garganta tiraram toda a tristeza que estava presa em minha alma.
Nesta Quinta da Saudade, divido com vocês um momento de distração. Assim que voltei da viagem e me sentei ao computador, peguei meu pandeiro e, numa brincadeira, cantei "Gírias do Norte". Afinal de contas, o primeiro coco a gente nunca esquece...



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